quinta-feira, 17 de março de 2011

Ficção ou Realidade?

Quando você assiste a um comercial de 30” na televisão, no cinema ou na internet, não tem a menor ideia do trabalho que deu para aquilo ficar pronto. E, normalmente, se o comercial é bom, ao final, você normalmente pensa: “Já acabou? Assim, tão rapidinho?”.  Por mais sexual que pareça, é exatamente essa a sensação – para quem assiste. Para quem dirige o comercial, geralmente é um trabalho que mistura muito prazer e muita dor.  Uma coisa meio sado-masoquista, com ingredientes de surpresa a cada cena.  Reverência a Freud, neste início de texto, tão cheio de expressões inconscientes.

Não é raro um comercial de 30 segundos demorar séculos para ser gravado, isso sem contar as inúmeras horas de pós-produção na ilha de edição. Por isso, quem não é da nossa área fica de saco cheio rapidinho se tiver de acompanhar uma gravação e sempre arranja um jeito de sair de fininho. Assim, quando alguém diz que vai acompanhar uma gravação minha, e se eu não estiver querendo que ela fique, eu começo a repetir a mesma cena, deixo o andamento bem devagar, faço tudo de forma muito enfadonha. Não demora muito e o intruso despista e vai embora. Mas, normalmente, a cena é mesmo repetida até ficar perfeita. Na edição, então, normalmente bate o maior sono em quem não está envolvido no trabalho, por conta da temperatura super agradável e do ambiente de meia-luz. Não, isso não tem nada a ver com Freud. A meia-luz é apenas para evitar interferência no julgamento do padrão de cores das imagens no monitor.

No início de 2010, meu grande amigo Arísio Coutinho, diretor de programação da Globo Nordeste, me apresentou um projeto muito especial. Arísio é um carioca apaixonado por Pernambuco. Ele me mostrou uma música cantada por vários artistas pernambucanos. Uma coisa muito emocionante mesmo.

O tempo do intervalo comercial na TV é dividido em frações de 15 segundos. Assim, você normalmente assiste a filmes de 15”, ou 30”, ou 45”, ou 60”. Este era ainda maior: um minuto e meio - 90”. Mas, de cara, senti a beleza da música e como ela podia resultar num filme bonito. Uma linda homenagem a Pernambuco, cantada por artistas pernambucanos. Tinha Alceu Valença, Lenine, Dominguinhos, o Rei -  Reginaldo Rossi, Antônio Nóbrega, André Rio, Cristina Amaral, Zé Brown e mais uma pá de gente.

Toda gravação começa, primeiramente, com a visão de quem vai dirigir. Então, eu normalmente começo a trabalhar olhando para o teto, fecho os olhos, baixo a cabeça na mesa, deito no sofá. Quem entra em minha sala, e me pega no meio de um processo desses, tem a certeza de que eu estou na maior preguiça, vadiando no trabalho. Mas eu juro que o processo, para mim, funciona exatamente assim. Quando eu começo a ter as visões – opa, isso parece coisa de filme de terror –, é chegada a hora de colocar tudo no que chamamos de storyboard, para que toda a equipe compartilhe a minha visão. E aí a gente tenta planejar cada cena bem direitinho. E lá vou eu com o meu planejamento:

O storyboard dá uma ideia geral para a equipe do que vamos realizar.

- Vamos começar a gravação na segunda-feira, às 6 da manhã porque a luz do sol é melhor nessa hora, porque a gente consegue fazer mais outras cenas ao longo do dia, etc e tal.”

Mas, aí, surge o primeiro problema para derrubar todo o planejamento: qual artista acorda às 6h da manhã? Nenhum. Então, o sol subiu, está lá em cima, a pino... Tem que usar um butterfly, que mais parece um mosquiteiro; um HMI, que é uma luz bem forte para usar como se fosse o sol, durante o dia. E foi desse jeito, com a ajuda de equipamento, que o primeiro problema foi resolvido. Em seguida, a gente entraria num consenso com os artistas porque, afinal de contas, o filme não poderia ter apenas cenas noturnas.

Butterfly é essa estrutura para evitar o sol a pino.

Quando crio, eu vou tentando fazer a coisa de forma a ter uma margem boa para rodar o máximo de cenas ao longo de um dia. Assim, pensei imagens para o dia e para a noite, mas elas tinham que se encaixar perfeitamente no andamento da música. 
Na casa de Alceu, em Olinda.
Gravei Alceu, em Olinda; Lenine, na praça de Casa Forte; Reginaldo Rossi, na praia de Boa Viagem; Antônio Nóbrega, no Teatro Valdemar de Oliveira.

Nando Cordel gravando a sua participação numa das versões do clip. HMI é a luz que está em quadro.

A frase musical de Dominguinhos era assim:

- O melhor São João do mundo, isso eu posso afirmar...

Só isso. Imaginei Dominguinhos no meio de um pessoal dançando quadrilha, num arraial todo enfeitado, com balões, bandeirinhas e fogueira. Primeiro problema: a gente estava em março. Como conseguir tantos elementos juninos? Mas isso a produção resolve. A produção sempre resolve tudo.

O lugar para fazermos o arraial foi escolhido. Bandeirinhas, balões, fogueira, milho, o pessoal da quadrilha junina. Perfeito. E aí eu chego para a minha produção e pergunto:

- E então, pessoal, quando vamos gravar Dominguinhos?

Nesse momento, as pessoas se entreolham e Katherine, que estava coordenando os artistas, diz pra mim, cheia de tristeza nos olhos.

- Dominguinhos disse que não vem, Ivanildo.  Falei como era importante ele gravar, ele agradeceu muito, disse que estava em tratamento de saúde e que não podia vir.

Desesperado, pensei numa solução.

- Kacá, a gente coloca ele num avião de manhã, ele grava rapidinho e volta no mesmo dia para São Paulo. Fala pra ele, fala!

O problema é que Dominguinhos não entra em avião nem amarrado. Ele percorre o Brasil todinho de carro. E, agora, o que a gente faz? Leva a produção toda pra São Paulo? Não tem verba pra isso. Tira Dominguinhos do roteiro? Não pode. O cara é um artista maravilhoso, discípulo de Luiz Gonzaga. Mas tinha que ter medo de avião e, ainda por cima, estar em São Paulo?!! Eu tinha que ter pensado nele no meio de um arraial?!!! Eu tinha que ser publicitário? !!!!!!!!!

Mas, então, a salvação... É nessas horas que eu me apaixono pela tecnologia. Hoje, a gente consegue fazer coisas que a ILM, Industrial Light and Magic, de George Lucas, fazia 20 anos atrás. Desde que a gente tenha muito cuidado, muito planejamento e, naturalmente, gente muito competente trabalhando na equipe. E, assim, decidi. Já que a montanha não vai a Maomé, Maomé vai à montanha. Kacá iria com o nosso diretor de fotografia, Santana, gravar Dominguinhos nos estúdios da Globo, em São Paulo. Antes, gravaríamos a quadrilha no arraial, e depois, na pós-produção, transformaríamos as duas cenas numa só. E, pronto! Dominguinhos cantando no arraial. O nome desse processo é chroma key.  No passado, a diferença entre as cenas ficava muito evidente. Hoje, a tecnologia digital permite um recorte perfeito, uma montagem imperceptível.

No dia da gravação do arraial, chovia a cântaros (eita que essa expressão é velha mesmo!). Era, praticamente, um dilúvio. Mexe daqui, ajeita dali, termina o arraial, viaja pra São Paulo, grava com Dominguinhos... Na cena final, depois da pós-produção, ninguém percebe que o artista e os figurantes estavam em locais totalmente diferentes.
Cena final do filme gravada no Parque 13 de Maio.

É só então que você se dá conta de que as coisas em televisão ficam grandes mesmo. Uma quadrilha junina com 40 participantes, equipe técnica com 15 pessoas, gravação em Recife, gravação em São Paulo, equipamentos, luzes, maquiagem, produção...Tudo isso para uma cena de 5 segundos. Hoje, quando assisto ao filme, fico em dúvida se tudo isso realmente aconteceu. Será que Dominguinhos não gravou aqui mesmo em Recife e eu inventei essa história toda? Ficção ou realidade?


Se você tiver dificuldade em rodar o vídeo, pode acessar também no link abaixo:
http://www.youtube.com/watch?v=jJb_6ENValk



quinta-feira, 10 de março de 2011

Cadê a parada?


Sempre tive um grande pavor de multidão. Então, imagine o suplício que é, para mim, estar no Galo da Madrugada. Percebi que tinha esse distúrbio da forma menos glamourosa possível. Ainda aos 8 anos de idade, meus pais resolveram me levar para assistir à parada militar do 7 de setembro. Em plena ditadura militar. Um inferno. Gente, muita gente. Um calor de torrar os miolos naquele sol das 11h da manhã. Eu, imprensado por aquela multidão, sufocado pela mistura de suor com perfume que pairava no ar, sem ver nada. Ouvia, sim, clarins tocando, barulho de motores, gritos de ordem...Aquela coisa toda foi tomando conta da minha cabeça, que começou a rodar, tudo em volta começou a escurecer, era como se o dia estivesse virando noite em poucos segundos. Sem sentir mais as pernas, fui caindo, e lembro que meu pai me pegou nos braços e me levou para longe dali. Aos poucos, recobrei a cor e tomei um abuso por militar de qualquer parte do mundo, e não apenas do Brasil, e jamais voltei a assistir a uma parada de 7 de setembro.

O distúrbio voltou a se manifestar muitos anos depois, numa apresentação da Paixão de Cristo, em Nova Jerusalém. Quem já teve a oportunidade de assistir sabe que o espetáculo é magnífico. A história é encenada num teatro ao ar livre, com 12 palcos-plateia, o público se movendo de ato em ato, atores excelentes e efeitos de luz e som impressionantes. Tudo isso faz com que você se sinta na Jerusalém dos tempos de Cristo. É fascinante. O espetáculo é assistido em pé, e a última cena – a da ascensão de Cristo – é a mais emocionante. Todas as cenas têm uma imensa carga dramática, mas a da ascensão, além de ser plasticamente perfeita, é carregada de um simbolismo muito forte. Ilustra bem o sentimento, que muitos têm, de vida após a morte.

Pois foi exatamente nessa cena que me vi rodeado de gente. Muita gente. As pessoas se imprensavam umas contra as outras buscando ficar mais próximas da ação. Comecei a me sentir esmagado por aquele mar de gente. O meu corpo franzino de adolescente começou a se sentir triturado e já não tinha forças para se impor contra o movimento da multidão que, cada vez mais, me comprimia. Senti que o sangue havia sumido de minha cabeça, uma dormência tomou todo o meu corpo. Foi no ápice da cena, quando o Cristo começou a subir em direção ao céu, que eu comecei a descer em direção ao chão. As pessoas que estavam comigo me retiraram do local e me estenderam sobre uma das pedras encravadas no belo cenário do Teatro de Nova Jerusalém.  Comecei a recobrar a consciência. Essas duas passagens aconteceram há muito tempo.

Dias de hoje. O ano, agora, é de 2011. Você já percebeu como quase todos os políticos, especialmente aqueles em cargos executivos, se acham o John Kennedy? Apesar de uma imensa semelhança, nenhum deles se vê como Odorico Paraguaçu, a criação tão real de Dias Gomes. Independentemente da cidade, estado ou país que governem, eles sempre se acham os maiores estadistas do mundo. E foi assim que, estando eu, por dever de ofício, no Galo da Madrugada, vejo irromper, em um dos camarotes, um baixinho caricatural. Ele andava apressado mas, com as perninhas pequenas, não percorria longa distância à medida que se movia. Cabelinho escorrido, repartido ao meio, óculos na ponta do nariz, uma figura cômica! Quase um hobbit, saído diretamente das páginas de J.R.Tolkien. Imaginei, em minha viagem alucinante, que ele estivesse muito aborrecido, já que, nessa época do ano, por tradição, a chave da cidade é entregue ao Rei Momo. O que me apavorou, no entanto, não foi o baixinho caricatural. O que me apavorou, de verdade, foram os “Aspone” que o seguiam. Para quem não sabe, a tradução de “Aspone” é Assessor de Porra Nenhuma. Eles seguiam o baixinho, todos de cara amarrada, exatamente como o chefe. Veio o trauma de infância, achei que era a parada de 7 de setembro em pleno Galo da Madrugada. Uma imagem surrealista. Comecei a contar Aspone por Aspone: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7... O baixinho já estava lá no meio do camarote e ainda tinha Aspone passando pela entrada. 12, 13, 14, 15, 16... A tropa se movia sem dar um sorriso, passos determinados, quase uma marcha. 19, 20, 21, 22...Ai, ai, ai, é a porra da parada mesmo! Três fotógrafos seguravam suas câmeras como se fossem metralhadoras. É a porra da parada! Agora, eu tinha certeza. É a porra da parada, mesmo!!! Comecei a suar frio. Vai começar tudo de novo. Já sinto a dormência no corpo. O dia começa a escurecer sob os meus olhos. Nessa hora, Juliana – a minha produtora, sempre ela – percebendo que estou perdendo a cor, grita o meu nome bem na minha cara. Autoritária, me manda respirar, me dá um copo d’água gelada e me ordena que eu sente. Pergunto pra Juliana, desesperado:

- E a parada, Juliana? Cadê a parada?!

E Juliana, sem entender absolutamente nada, responde daquela forma delicada, tão característica dela.

- Que parada, Ivanildo?! Enlouqueceu?!!! Fumou?!!! Bebeu?!!! Cheirou?!!! Eu não sei de parada nenhuma!

Só para constar, eu não fumo, não bebo, nem cheiro. Para decepção de muita gente que me conhece, sou totalmente careta. Depois dos esporros de Juliana, resigno-me a obedecer às suas ordens e fico tentando percorrer os recantos do meu cérebro para saber se tudo aquilo não havia passado de alucinação ou se, de fato, tinha mesmo acontecido. A resposta à minha dúvida não demora. Depois de alguns minutos sentado, vejo o “John Kennedy Paraguaçu” saindo do camarote, seguido da tropa, seus mais de 25 “Aspone”. Indo embora. Tinha mesmo acontecido. Aliviado por eles estarem partindo, me dirijo à parada imaginária apenas em pensamento:

- Adeus! Adeus! Adeus!

Que pavor eu tenho de multidão. 

quinta-feira, 3 de março de 2011

Apenas uma Fatalidade


Em algum momento das nossas vidas, já nos deparamos com algumas coisinhas muito irritantes. Essas pequenas coisinhas irritantes são, normalmente, crianças que têm os pais totalmente sob o seu controle. Isso... São as crianças que mandam nos pais e não, como manda o bom senso, exatamente o contrário. Elas exercem um tipo de ditadura do terror sobre os seus genitores que me deixa perplexo.

Se eu tenho certeza que você já passou por essa situação uma ou duas vezes, é de impressionar como eu atraio essas criancinhas.

Um desses acontecimentos foi numa loja de presentes em que eu já estava no caixa, pagando ao próprio dono. Chega a mulher desse senhor, com uma criança aos berros... E, por favor, entenda quando eu falo “aos berros”. Ela gritava muito, muito alto. O que ela gritava era um verbo no presente do indicativo, 1ª pessoa do singular, acompanhado do pronome pessoal, com ênfase na primeira sílaba do verbo, estendendo essa sílaba por, pelo menos, três longos  segundos, o que, traduzido graficamente, é exatamente assim:

Eu queeeeeeeeeeeeroooo!

A afirmação era seguida por um choro histérico que durava mais 4 ou 5 segundos. Então, a sequência completa acontecia deste jeito:

Eu queeeeeeeeeeeeroooo! Buáááááááááááááááááá! Eu queeeeeeeeeeeeroooo! Buáááááááááááááááá! Eu queeeeeeeeeeeeroooo! Buáááááááááááááááááááááá!

A mãe explica para o pai do menino, com uma cara apalermada (nesse caso, a cara apalermada pertence aos dois), que ela e a criança tinham passado por uma loja de brinquedos e que o menino tinha visto - veja bem você – um navio na vitrine. E o menino não parava:

Eu queeeeeeeeeeeeroooo! Buáááááááááááááááááá! Eu queeeeeeeeeeeeroooo! Buáááááááááááááááá! Eu queeeeeeeeeeeeroooo! Buáááááááááááááááááááááá!

Esperando que o pai passasse o meu cartão, tive que assistir àquela cena deprimente. Foi então que me inspirei na série Guerra nas Estrelas, assumi o olhar de Darth Vader e encarei o menino bem no fundo dos seus olhos. Assim que o seu olhar cruzou com o meu, ele cortou a trilha irritante do choro. Olhou assustado para mim. Calou-se. Infelizmente, por alguns poucos segundos. Apenas por poucos segundos. Voltou o olhar para mãe e recomeçou:

Eu queeeeeeeeeeeeroooo! Buáááááááááááááááááá! Eu queeeeeeeeeeeeroooo! Buáááááááááááááááá! Eu queeeeeeeeeeeeroooo! Buáááááááááááááááááááááá!

Vi que Darth Vader funcionou, mas que eu não tinha a força mental para fazer o peste do menino calar a boca por mais tempo. Acho que, nessas horas, não existe força mental que dê jeito. Talvez, pais que não sejam apalermados ou, quem sabe, um acidente. E foi aí, então, que me lembrei de um outro acontecido com uma criança do mesmo grupo.  Refiro-me a “Grupo de Comportamento” que pode ser chamado, também, de “Transtorno de Alguma Coisa”.

Estava em um voo de Recife para o Rio. E, quando viajo de avião, penso logo em tirar o atraso do sono que me acompanha sempre. Durmo como se tivesse tomado calmante. Só que nesse voo havia uma criança do grupo a que me referi. Tão logo o comandante desligou a luz de atar cintos, os pais soltaram a sua ferinha em pleno corredor do avião. Confesso que nunca torci tanto para uma turbulência daquelas, bem assustadora.


O menino começou a correr pouco antes de chegarmos a Alagoas. Ele ia da primeira à última fileira e voltava. E, naturalmente, passava esbarrando nas pessoas que, como eu, ocupavam a poltrona do corredor.

Entramos na Bahia e o danado do menino correndo. Vai ter resistência assim no inferno! Eu sem conseguir pregar um olho. Lá vinha ele e tome a esbarrar nos passageiros. Não me contive mais. Fui até a chefe de cabine e perguntei:

Se eu não posso passar pela segurança com uma inofensiva garrafa de água mineral, como é que deixam alguém entrar com aquilo no avião?

E, constrangida, a chefe de cabine me diz que já falou com os pais, mas que, infelizmente, eles não tomaram nenhuma atitude. Aí, eu me referi à segurança de voo, que o próprio menino podia cair e se ferir, que podíamos atravessar uma turbulência rápida, que a norma é viajar com o cinto afivelado, mas a tripulação se mostrou impotente. Nesse ponto, já estávamos percorrendo ora o estado do Espírito Santo, ora o de Minas Gerais. Voltei para a minha poltrona, e foi então que a sabedoria da fatalidade pôde ser apreciada em toda sua beleza. Fatalidade é quando uma série de microssituações acontecem levando a um desfecho trágico para alguns, aliviador para outros. Quem já assistiu a um filme chamado “Premonição”? Não é de bom gosto, mas ajuda a entender a situação.



Na hora em que sentei de volta em meu lugar, o meu celular caiu embaixo da poltrona do meio. Automaticamente, comecei a me baixar para apanhá-lo. A partir daí, senti os momentos seguintes em ultra-hiper-super-câmera-lenta. À medida que eu fui me baixando, a minha perna esquerda foi entrando no corredor...  Eu estava na poltrona 7D (vejam no mapa de assentos). O menino vinha correndo do fundo da aeronave. Agora eu conseguia ouvir os passos do menino e era como se houvesse um intervalo de 5 segundos entre um passo e outro, a batida do seu pé no piso da aeronave produzia um som que também se estendia indefinidamente – a câmera lenta. No momento em que eu involuntariamente estendi a minha perna para o corredor, na tentativa de alcançar o meu celular, o menino estava voltando nas imediações da fileira 8. Percebi que ele estava ali pertinho, mas, infelizmente, não tive tempo de recolher a minha perna – a câmera lenta outra vez. O menino tropeça na minha panturrilha e voa, pousando como uma pedra na altura da fila 4. Ele levanta, completamente desconfiado, consciente – sim, eles têm consciência – de que havia recebido o castigo natural da fatalidade. Só então, já perto de entrarmos no estado do Rio de Janeiro, ele volta para a sua poltrona, e fica sentado junto aos pais, imóvel, durante todo o tempo restante de voo.

Quando, aliviado pelo pobre menino não ter sofrido nada, e sossegado por ele não estar mais correndo, me preparo para um pequeno cochilo no tempinho que me sobrara. Foi quando a chefe de cabine chega junto à minha poltrona e me dá, de presente, uma caixa de chocolates suíços que ela havia trazido de uma de suas escalas.

Muito obrigada, senhor. Foi maravilhoso o que o senhor fez por todos nós.

Aquela aeromoça realmente achava que eu tinha colocado a minha perna de propósito para o menino cair. Que coisa terrível... Como ela podia pensar aquilo de mim? Logo eu que adoro criança... Tentei, por todos os meios, dizer que não havia feito nada. Mas ela não aceitou os meus argumentos para recusar a caixa de chocolates. Olhei para trás e todos os passageiros, especialmente os que estavam nas poltronas do corredor, me lançaram um olhar de sorriso agradecido. Involuntariamente, fiz o que todos queriam ter feito. Como explicar para eles que tudo aquilo havia sido apenas fatalidade? Apenas uma fatalidade.



quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Pula, que eu vou pular!

Aos 16 anos, eu ainda não havia sido mordido pelo bicho da publicidade. Estava me preparando para fazer o vestibular no final do ano.  Um certo domingo, tive que ir com o meu pai ao Aeroclube de Pernambuco. Ele ia fazer uma viagem e, em vez de sair do Aeroporto dos Guararapes, o avião, um bi-motor Baron Beechcraft, decolaria de lá. Quando cheguei ao Aeroclube, fiquei encantado com os pequenos monomotores de treinamento. Pensei comigo:

- Caramba, deve ser uma experiência fantástica voar numa coisa como aquela.

Foi naquele momento que eu decidi abandonar o meu curso de alemão, depois de seis meses de arranhões na garganta e a tentativa de decorar palavras quilométricas. Eu tinha a justificativa para mim mesmo: eu ia ser piloto de avião. Mas, na verdade, não queria seguir carreira. Queria apenas voar.

Meu pai concordou na hora. Na semana seguinte, eu já estava fazendo o curso teórico, ansioso por aquele que seria o meu primeiro voo. Foi num Fokker T-21. Coloquei o macacão de voo todo orgulhoso, identifiquei o instrutor que ia voar comigo. Ele percorreu cada centímetro do avião, mostrando tudo que eu deveria observar antes de entrar na cabine.
O Fokker T-21

Finalmente, subimos. O Fokker T-21 tinha uma cabine transparente que era travada em cima. O instrutor ligou o motor. O meu coração batia acelerado. Chegamos à cabeceira da pista, ele deu potência total. A aeronave rasgou a pista do Aeroclube de Pernambuco e, de repente, me vi no ar com o mar do Pina à minha frente. Que bela visão. Iniciamos um voo suave em direção ao norte. Passamos por Olinda, e fizemos a volta. Eu estava me sentindo o próprio Fernão Capelo Gaivota. Quando atingimos, mais ou menos, o Cais José Estelita, aquele instrutor resolveu me fazer desistir do curso. Olhou secamente para mim e, com a cara mais inexpressiva do mundo, falou:

- Vamos fazer um parafuso.

Olhei pra ele apavorado e rebati com a voz engasgada, em pânico.

- Parafuso? Como assim, parafuso? Aqui, no centro da cidade?

As frases seguintes eu não disse pra ele, só pensei comigo.

- Parafuuuusssooo! Kerêêêlhooooo!!!! E se essa merda não sair do parafuso... Ai que saudade do meu curso de alemão. Eu não sou gaivota, porra nenhuma. 

Pensei nas asas derretidas de Ícaro. Vi meu corpo estrebuchando no chão.

A sensação do parafuso provocado é bem desagradável. O avião começa a subir até não poder mais. Quando está perto de não poder mais, ele começa a se tremer - acho que de medo, também - e, quando a tremedeira aumenta, o piloto mete o pé no pedal, o avião vira para o lado que ele determinou, e, aí, como se estivesse desmaiando, embica em direção ao solo e girando no próprio eixo. E eu vendo o mundo girar. Nem nas minhas maiores cachaças eu vi o mundo girar tanto. Aí, ele equilibra, para de rodar e, assim, do nada, começa a sair do parafuso. Você sente a pele do seu rosto repuxar para baixo, coração, pulmões e todo o seu aparelho digestivo querendo sair pela boca e os olhos em um estado de arregalamento só possível de descrever com os traços de desenho animado.
Essa é a visão que você tem do mundo quando faz um parafuso pela primeira vez.

Aquele instrutor queria mesmo me sacanear. Mas, aí, eu percebi o que ele queria e resolvi, eu, sacaneá-lo. Comecei a gritar feito louco dentro da cabine:


- Que massa
, veio, muito legal, muito legal, faz mais outro, quero mais outro, mais um, por favor mais um, só mais um...

O instrutor, tão seco quanto antes, respondeu:

- Não. A sua hora acabou. Vamos pousar.

Aquele filho da puta me aplicou um dos maiores sustos da minha vida. Mas eu consegui fazer com que ele se decepcionasse também. No entanto, pensando bem, devia ter desistido ali. Tivesse eu sido sábio, teria evitado o pior que ainda estava por acontecer.

Dois meses depois, o Aeroclube partiu em esquadrilha para Caruaru. Foi uma festa. Quando chegamos e descemos dos nossos aviões com aqueles macacões azuis, éramos os próprios Top Guns do Agreste. Pense no sucesso. Foi um fim de semana de festa. Muitas acrobacias feitas pelos ases - loopings, rasantes, parafusos - e eu, ainda estando no início do curso, assistindo a tudo do solo. Mas com o meu macacão azul.

Chegou a hora de voltar. Eu tinha apenas 5 horas completas de voo. O piloto que ia levar o Fokker T-21 de volta para Recife tinha acabado de conquistar o seu brevet. Tinha 45 horas de voo, o que em aviação não significa absolutamente nada. O cara com 45 horas de voo não está preparado para nada. Só que, na volta para Recife, tudo que não podia acontecer, aconteceu. Fomos o primeiro avião a sair de Caruaru com a função de observar se havia teto na Serra das Russas, em outras palavras, se a serra não estava tomada por neblina, o que impediria um voo visual. O pessoal calcularia o tempo e, caso não voltássemos, é porque havíamos passado com tranquilidade. Isso porque o Fokker T-21 nem sequer tinha rádio.

Antes de decolarmos, os outros pilotos fizeram uma brincadeira de mau gosto: colocaram uma coroa de flores em cima da cabine. Benzeram o avião, encenaram choro, um monte de performances para assustar o primeiro voo importante de Paulo Bigode e do aluno inciante que compunha o resto da tripulação. E, agora, você pensou: o nome do cara que ia pilotar o avião era Paulo Bigode? E você conclui: não tinha a menor possibilidade de isso dar certo.

Atravessamos legal a Serra das Russas. Mas, quando passamos de Vitória de Santo Antão, tivemos a visão do juizo final à nossa frente. O céu estava preto. P-R-E-T-O. Eu nunca tinha visto, em toda minha vida, um céu tão preto como aquele. Eu vi Paulo Bigode engolir seco. E foi exatamente aí, nessa ausência de saliva, que ele cometeu a maior merda da vida dele: o cara entrou na porra da nuvem preta. Ele podia fazer tudo, menos entrar naquela nuvem preta. Foi como se a gente tivesse entrado na metade da volta de uma montanha russa. A chuva e o vento abriram a cabine do Fokker. Começaram os trovões, relâmpagos, um balanço a ponto de me jogar por cima da cobertura da cabine. Um desespero. Eu já tinha certeza de que ia morrer. Uma luta durante quase meia hora. Foi então que Paulo Bigode olhou pra mim e, entre os estrondos dos trovões, se dirigiu ao seu "co-piloto" gritando:

- Pula, que eu vou pular!
Ai, ai, ai... Como assim "pula, que eu vou pular!?"... Eu estava mais como passageiro do que como co-piloto naquele avião. Eu só tinha 5 horas de voo, mal tinha aprendido a decolar. O pouso é a última manobra que se aprende no curso. Mas pular é uma coisa que a gente não aprendia. A única instrução que nós tínhamos, em caso de ter que pular, era de apertar bem as tiras do paraquedas, entre as coxas, para que, na hora do impacto, quando ele abrisse, não tivéssemos matéria-prima para um omelete. E Paulo Bigode gritou mais uma vez:


- Pula, Ivanildo, pula! Pula, que eu vou pular!!!!
Não teve outro jeito. Não pulei. Na verdade, me joguei, segurando o mecanismo de abrir o paraquedas, como se ele fosse a minha própria vida. Pulei no vazio. Até quanto eu deveria contar para puxar o mecanismo? Até 3? Até 10? Deveria puxar imediatamente? Fiquei no meio termo. Contei até 10 bem rapidinho: umdotrqucinsesetoinoDEEEEZZZZ!!! E puxei! Senti o impacto. Nada foi amassado. Aí, começou um outro sufoco: onde danado eu ia cair? Eu sabia que a gente estava perto de Recife. Fiquei imaginando, já pensou se eu caio em plena Conde da Boa Vista? E, se eu caio no mar? Eu tenho pavor de mar. Eu vou olhando pra baixo, ainda estou dentro da nuvem, não tenho a menor ideia de onde vou cair. Foi então que, quando eu vi... Só deu tempo fechar os olhos e baixar a cabeça. Como estava ventando muito, me esborrachei de encontro a uma árvore. Uma porrada na cabeça. Perdi os sentidos. Quando acordei, estatelado no chão, anestesiado pela adrenalina, cercado de um imenso silêncio, no meio de uma mata, achei que tinha morrido. 

- Será que isso é uma estação de passagem?

Foi quando ouvi Paulo Bigode gritando o meu nome, desesperadamente. Aí percebi que estava vivo, que aquilo era uma mata e não estação de passagem. O avião não tinha atingido ninguém na área desabitada em que caiu.

Ainda voltei a voar, mas não cheguei a tirar o brevet. O macacão azul, ensopado no meu corpo por horas e horas embaixo de chuva, me rendeu uma gripe e uma bela de uma sinusite que carrego comigo até hoje. Todo mundo quer viajar ao meu lado, de avião, porque, supersticiosos, dizem que é impossível eu morrer de acidente aéreo depois dessa experiência.


E, aí, quando eu achei que a história acabaria aqui, anteontem, caiu na Mercado, um monomotor que não conseguiu pousar no aeroclube. E, em que parte da Mercado ele caiu exatamente? Na minha sala. Eu tinha saído 10 minutos antes para apanhar o meu filho no colégio, uma situação extremamente rara. Isso reforça a teoria daqueles que querem estar perto de mim quando se trata de acidente de avião.
A queda e o içamento. Héber, Roberta, Márcio, Val e Juliana esperando para entrar na agência.

De alguma forma, o acidente dessa semana me lembrou da tragédia na minha adolescência. Revivi de um outro ponto de vista, estando no solo. Depois do susto, todos ficaram bem, inclusive o piloto.

Agora, eu tenho que terminar perguntando a você. Você entra em um avião, o embarque sendo feito em um 737-700 por aquelas aeromoças. Fecham-se as portas. Aí, a chefe da equipe começa a receber os passageiros.

- Eu sou Juracilda Boquinha, chefe da equipe, e quero dar as boas-vindas a todos em nome do Comandante Paulo Bigode e do seu co-piloto Ivanildo. 

Com toda sinceridade, o que você faria numa hora dessas?

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Agora, falando sério.

Bem, nem sei se dá pra falar tão sério assim. Depois que eu vi os comentários que os meus amigos postaram no facebook em resposta à minha pergunta sobre o MOL (Química), acho que tudo perdeu a seriedade. Peço, de antemão, perdão aos professores de Química, como peço aos de Física, de Matemática e de Biologia. Assim, fica claro que eu sou Humanas até os ossos. E eu descobri isso cedo? Sim, ali pela 6ª série quando eu me saí extremamente mal numa prova de Matemática. Foi a primeira "nota vermelha" da minha vida.

Tirando os nerds, que gostam de absolutamente tudo, acho que nós, seres normais, tendemos, sempre, para uma das áreas: Humanas, Saúde ou Exatas. E isso se define relativamente cedo em nossas vidas.

Descobri, rapidamente, que o meu negócio era Humanas e não Exatas, nem Saúde. Descobri que não era Saúde porque não vi a menor graça em dissecar o sapo que colocaram na minha mesa na aula de laboratório. Pouco tempo depois, descobri ainda mais fortemente que Saúde não era a minha praia quando, numa festa, um danado de um menino atravessou uma porta de vidro e, ao vê-lo todo ensanguentado, o meu sangue foi fugindo de mim, a visão ficou turva e, por um momento, as pessoas que estavam cuidando do menino ensanguentado desviaram a atenção para mim. Que vergonha. Se, por um lado, descobri que eu não tinha nada a ver com Saúde e detestava Exatas; por outro lado, tinha um prazer próximo ao do sexo nas aulas de Português, Redação e, principalmente, de História. Eu não quero nem pensar no tempo perdido e no espaço ocupado do meu cérebro com coisas que eu jamais utilizei em minha vida nas áreas de Química, Física, Biologia e Matemática. E, acreditem, eu até tento utilizar. Dia desses, precisávamos descobrir como fazer a base de uma peça que era uma circunferência. Eu sabia que, em algum momento, eu tinha estudado aquilo. Mas, não lembrei. Fui no Google e ele me disse que era 2π.r. Eita! Usei, usei, usei! Saí que nem Arquimedes saiu da banheira, nu, gritando pelas ruas de Siracusa: "Eureka! Eureka!". Bom, eu, pelo menos, não estava nu.

Mesmo levando em conta as aulas de Química, Física, Biologia e Matemática que matei no Ensino Médio, pra ficar tocando violão e flauta doce, consegui ser aprovado na UFPE para Administração de Empresas, em um belo de um 7º lugar. Se fosse hoje, com o tanto de violão e flauta doce que eu toquei, e tivesse feito vestibular para Música, teria ficado com o primeiro lugar e ainda ganhava o carro 0km da Globo. Que maldade, Ivanildo Holanda! Que comentário capcioso! E por falar nisso...

Dos dez primeiros colocados no Vestibular das Federais, deste ano de 2011 da era cristã, seis, isso mesmo, seis são do curso de Música! Uau! Dizem por aí que o pessoal de Medicina tá pau da vida. É claro que qualquer pessoa sensata vai achar esse resultado muito estranho. Houve mudança de critério e, tá na cara, uma mudança de critério braba. Eu fico imaginando que isso foi decidido numa reunião de sábado à tarde, ali pelas 17h. Os professores que foram definir o destino de mais de 40 mil feras chegaram todos já meio altos das cervejas que tomaram ao longo do dia. O Prof. Zacarias Sterlig dirige-se a um colega de forma escrachada:

- Fala aí, "Oião"!

Ou vocês acham que os professores universitários se tratam formalmente numa reunião de sábado à tarde para decidir sobre vestibular?  O Prof. Stenio Kochanwsky, o Oião, responde na mesma moeda:

- Fala, Zé Ruela. Quem foi o "viado" que marcou essa porra dessa
reunião num sábado à tarde?

Nessa hora, levanta a Profª Alícia, presidente de uma das comissões, com toda sua simpatia, e diz com aquela cara de b#%*& que ela tem:

- Fui eu, professores. Por favor, ilustres membros do conselho, vamos manter um pouco de dignidade acadêmica.

Nessa hora, o mais velhinho do grupo, à beira da aposentadoria compulsória e completamente embriagado, sai do banheiro sem as calças, vestindo apenas uma cueca samba-canção de bolinhas vermelhas. O professor doutor Remildo Roller, com uma lata de cerveja na mão, esbraveja:

- Dignidade acadêmica é o cara#%*¥. Eu quero é música, eu quero é música! Rola o sambinha aí, pessoal!.

Foi então que, inspirados pela fala de Roller, outros três professores começam a batucar o samba famoso de Ataulfo Alves na mesa de reunião, trocando o nome de Amélia por Alícia e acrescentando textos mundanos à letra da música. Em coro, soltaram a voz:

- Alícia não tinha a menor vaidade... Por cima!!! Alícia é que era mulher de verdade... Por baixo!!!

Todos, na sala, tomaram um grande susto quando, de um armário grande que estava na sala, saiu o presidente do conselho com tanguinha,  botas vermelhas e peruca loura e gritou, saltitando:

- Eu tenho a força!

A saída do presidente do armário foi como um breque no samba. E todos concordaram, para terminar logo aquela reunião de sábado, em menos de15 minutos, animados por cerveja e música, que o curso de Música é que arrasaria nos resultados do Vestibular. E assim foi decidido.

Por favor, que a galera de Música não fique com raiva de mim. Mas, se houve uma mudança de critério, quem mudou tem que assumir.

O Vestibular desse ano está sendo marcado por uma coleção de fatos que, no mínimo, maculam o processo. A Covest fez a maior lambança colocando nome de candidatos no listão que, de fato, não haviam sido aprovados. Armando alguma tentativa de resposta, o presidente interino se enrola, e tenta enrolar o público, dizendo que o sistema não falha, que a culpa foi dos candidatos, que the book is on the table... Mas não sabe explicar exatamente o que aconteceu. Dá pra ver, nitidamente, que o cara não sabe o que está falando. Ouviu o galo cantar e não sabe onde. Que pena ver uma instituição como a Covest, que era sinônimo de credibilidade, se afundar numa história dessas. Nesta quinta, 24 de fevereiro, a Covest vai entregar ao Ministério Público as suas justificativas documentadas, provando que o erro foi dos alunos e não da instituição. Dizem eles.

E as redações do ENEM? Teve corretor botando a boca no trombone, dizendo que não recebeu instrução, nem treinamento, para fazer o trabalho. Que processo seletivo é esse, afinal? Que educação é essa, afinal?

A educação no Brasil precisa ser revista de forma inteligente. E há umas burrices no processo que não têm justificativa. Por exemplo: muitos alunos, hoje, estudam inglês em cursos específicos de línguas. Isso faz com que esses alunos fiquem muito acima do nível dos colegas na escola regular. Enquanto o que faz o curso específico, intercâmbio, proficiência pelas Universidades de Michigan e Cambridge comunica-se perfeitamente na língua estrangeira, os outros estão cumprindo um ritual de perda de tempo, já que não se aprende uma língua estrangeira em turmas de 60, 70 alunos. Essa situação aconteceu comigo quando fui aluno, aconteceu comigo quando fui professor e acontece agora com os meus filhos. Colocar esse menino para ler qualquer coisa na biblioteca será uma atitude mais inteligente do que deixá-lo numa sala ouvindo coisas como "o plural de mouse é mice" ou o indefectível “the book is on the table”. É preciso ter um saquinho com uma imensa capacidade de armazenagem. Será que os burocratas não veem isso? É muita inércia! Eita! Usei Física, usei Física! Usei Físicaaaaaaa!!!!!

As coisas vão sendo empurradas com a barriga dos que ditam as regras da educação. Para eles, tá bom assim, tá tudo bem assim. Continuam Armando, continuam cantando: Alícia não tinha a menor vaidade… Vamos ver, no próximo ano, qual o curso que eles vão escolher para ter a melhor classificação no Vestibular das Federais. Afinal, são eles que gritam:

- Eu tenho a forçaaaaaa!!!! Uau!


É bom a gente sempre saber os nomes dos que estão à frente das Universidades, Conselhos de Educação, Comissões de Vestibulares e legisladores para que eles sejam responsabilizados pelo mal que causam à educação do país.

MEC
Ministro: Fernando Haddad

COVEST
Presidente: Lícia de Souza Leão Maia 

Presidente Interino: 
Armando José Pessoa Cavalcanti

CONSELHO ESTADUAL DE EDUCAÇÃO PERNAMBUCO
Presidente: Fernando Antônio Gonçalves 
Vice-Presidente: José Amaro Barbosa da Silva 


Conselho Nacional de Educação:
Presidente: Antônio Carlos Caruso Ronca

Reitor UFPE: Amaro Lins
Reitor UPE: Carlos Fernando de Araújo Calado

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A Culpa é Minha

Apesar de nunca ter sido apaixonado por criança, tenho uma relação muito legal com os meus modelos mirins. Pâmela, Klaus, Maitê e Beatriz Ruivinha, por exemplo, são até mais profissionais do que alguns adultos com quem trabalhei ao longo da vida. Já houve oportunidade de estarem exaustos, após horas de gravação, e se manterem firmes, não abrindo mão de fazerem a cena. Tenho exemplos extremos com Pâmela e Maitê em que as duas superaram o cansaço e fizeram suas cenas de forma brilhante. É um prazer imenso trabalhar com elas, especialmente porque seguem todas as minhas orientações. Isso é tudo que um diretor quer de um ator mirim.

Certo dia, no entanto, precisamos rodar um filme para um resort. Para os modelos, tanto adultos como mirins, uma coisa super divertida. Trabalho pesado mesmo só para a equipe de produção e gravação, embaixo de sol, percorrendo as distâncias descomunais, entre um set e outro, naquele lugar imenso. 
Juliana passeando pelo resort
Já para os modelos, a coisa funcionava assim: a cena deitando na rede, a cena no bar da piscina, a cena do café da manhã, a cena caindo na cama, a cena no kid's club e assim por diante.


Modelos sofrendo à beira da piscina
Apesar do extremo desgaste físico, o meu sofrimento começou mesmo quando eu tive que fazer a primeira cena com a modelo mirim escolhida pela produção e pelo cliente. Produção publicitária atrasada é pleonasmo. O cliente quer tudo sempre para ontem, os detalhes sempre se definem no último momento, o transporte atrasa, algum modelo atrasa... Não sei mesmo como, no fim, a peça sempre fica pronta a tempo. 


Juliana segurando a vela para os modelos
Como estávamos atrasados - naturalmente -, não tivemos tempo de testar a modelo em estúdio. Escolhemos apenas pela foto. Um grande erro. Empatia é uma coisa fundamental entre quem vai atuar e quem vai dirigir. Pois empatia foi uma coisa que não houve entre mim e aquela menina de 6 anos de idade. Aliás, acho que ela foi nessa produção com o objetivo determinado de me sacanear.

Lá estava a menina - que eu fiz questão de esquecer o nome - brincando com Klaus, um dos meus modelos mirins favoritos. A menina ria um riso alto e solto. Aí cheguei junto dela para fazer aquele ritual de aproximação e conquistar a confiança da menina. Ao me ver, ela ficou séria. Quando eu falei com ela, ela ficou abusada. Quando eu pedi pra gente gravar a primeira cena, ela esboçou um choro.

- Ai, meu saquinho!

Fui tentando usar a psicologia que acumulei nos anos e anos de direção.

- Sorria, meu amorzinho. Sorria aqui pra lente! Sorria pra o tio.
Sorria para a #*¥x%#

Nada! Ela realmente queria me sacanear. E eu digo isso porque, assim que eu parava de olhar pra ela, aquela doçura de criança começava a rir incontrolavelmente. Aí eu apontava a câmera e ela ficava séria. E foi assim ao longo do dia. Mas você sabe de quem é a culpa de uma situação assim? A culpa, em primeiro lugar, é da mãe. A mãe sempre projeta na filha o que ela gostaria de ter sido. E, se a filha tiver olhos claros, aí é que projeta mesmo. A mãe vai fazer tudo pra colocar a danada da menina na TV. Mesmo que a menina não queira. Como essa não queria. Mas a culpa definitiva é minha. É minha, exclusivamente minha. Eu não poderia deixar de exigir um teste de estúdio como fazemos em quase todas as situações.


A equipe tentando me acalmar
O ápice do meu relacionamento com essa menininha foi no salão de jogos em que eu implorei um sorriso dessa, dessa...dessa... menina e ela não deu. Fui para trás de uma parede onde ninguém pudesse me ver e me inflingi o castigo de chutar a parede com força, esmurrar a parede, travar os dentes. Tive que fazer isso com a parede porque do contrário...


Ricardo Jacaré, diretor de fotografia, e Adriana, mãe de Klaus.
O diretor de fotografia desse filme era Ricardo Jacaré. Ao chamá-lo para decidirmos o que fazer para gravar a menina sorrindo, o apelido dele me fez lembrar dos documentários do National Geographic, daquelas imagens tão naturais dos animais produzidas pelo canal.

Jacaré - NatGeo - NatGeo - Jacaré... 

Foi uma inspiração. Pedi a Jacaré para esconder a câmera bem longe, atrás de umas árvores, camuflá-la e usar a maior teleobjetiva que tivéssemos. Saí de cena para a menina achar que eu tinha ido embora. Afinal, ela havia me rejeitado como diretor. E aí ela se desmanchou em risos. Ria do palhaço, ria da mãe, ria para a produtora, ria para o maquiador. Ria até da própria sombra. Ria, ria, ria e ria. E foi só assim, usando a técnica do NatGeo, Discovery e BBC ao filmarem os animaizinhos da natureza, que eu consegui captar a graciosidade daquela, daquela...daquela... menina que tirou um dia da vida dela exclusivamente para me sacanear. Bem que minha mãe queria que eu tivesse estudado para conseguir passar no exame do Instituto Rio Branco e ser diplomata do Itamaraty. Mas, aí, eu resolvi ser publicitário. Bem feito!