quarta-feira, 25 de abril de 2012


Senhoras distintas

Todos nós ficamos abobalhados com os ídolos. A sensação de encantamento permeia o nosso espírito à mínima possibilidade de estarmos frente a frente com eles.
Eu estava começando a minha carreira profissional, na área de direção de vídeo, quando fui convidado a fazer um “sangue azul” que, explique-se, é um termo usado pela galera de produção para indicar ausência total de verba por parte do cliente. Ou seja, grana zero. O sangue azul em questão era pra gravar um depoimento em favor de um candidato a vereador, o grande comunista Paulo Cavalcanti.  E quem ia gravar o depoimento? Ninguém menos do que Jorge Amado.

Eita pau!

Fui apresentado aos livros de Jorge Amado por minha irmã no início da minha adolescência. Capitães de Areia me prendeu às suas páginas e como foi difícil me despedir ao chegar à última delas. Tantos outros vieram: Mar Morto, Tieta, a trilogia Subterrâneos da Liberdade... Jorge Amado, para mim, não era de carne e osso. E eu ia conhecer a divindade pessoalmente. E mais: ia dirigir Jorge Amado! Início de carreira e eu ia dirigir Jorge Amado. Pra mim, pouco importava se era depoimento para vereador ou sangue azul.

Cheguei mais cedo no local de gravação, a equipe montou os equipamentos, checamos o microfone pelo menos cinco vezes. Tudo pronto para receber a divindade que estava descansando depois de ter enfrentado um voo de Paris a Recife. Em alguns instantes, ele surge na sala. Meu coração acelera. Putz, era a divindade materializada em carne e osso. Ele se dirige às pessoas que estão no set, todas fãs exatamente como eu. E aí ele se dirige a mim.

-       “É aqui que eu vou sentar?”
-       “Isso mesmo, seu Jorge.” Respondo com a voz trêmula.

Aí explico que ele vai ter 50 segundos para falar e que, para auxiliá-lo, eu avisaria quando chegasse aos 30” e aos 40” para, então, ele fazer o arremate. Fiz exatamente como prometi. Só que Jorge Amado ignorou os meus sinais e passou dos 50 segundos, 60, 70, 80, concluindo a sua fala aos 92 segundos. Eu, meio sem jeito, chego junto dele e falo completamente embaraçado.

-       “Seu Jorge, o tempo estourou...”

Ele nem discutiu comigo. Tirou o microfone de lapela, me entregou e disse, bem baianamente: “Depois, você edita aí.” E se levantou.

O que eu ia dizer pra Jorge Amado? Ia dizer que não? Que ele tinha que repetir? Murchei o meu discurso de diretor. Isso é o que acontece quando você está frente a frente com o seu ídolo. Você perde a força e fica incapaz de realizar o seu trabalho de forma competente. Se ele não fosse um ídolo para mim, quando tivesse falado, “depois, você edita aí”, eu teria respondido ”edita aí porra nenhuma, meu velho. Tem que fazer tua fala no tempo”. Agora, imagina você, eu falando nesses termos pra Jorge Amado. É, não dá nem para imaginar. Os ídolos fazem a gente perder a dignidade.

Aí, por falar em perda de dignidade, no fim de semana passado Recife recebeu ídolos de vários públicos. Paul McCartney, ex-Beatle, foi para o Arrudão. Por mais que tivesse vontade de ir, não consegui me ver no estádio do Santa Cruz junto com mais 60 mil pessoas. Tive medo, fui frouxo. Preferi internalizar um comentário ao texto de minha irmã postiça, Fabiana Tavares, da Virtual Produções, em que ela falava, lá no Face: “ok, ok, sou a única pessoa na cidade que NÃO que ir ao show de Paul”. O comentário de Maria Rosa, logo abaixo foi genial: “Se fosse John, eu ia.” Pronto, tomei o comentário de Maria Rosa, que eu nem conheço, para mim. Se fosse John, eu ia. Bela desculpa. Poética até.

Como eu nunca havia assistido a um show de Chico Buarque, foi a minha opção no Recife/Olinda de tantas atrações. Diferentemente do Arrudão, teatro, estacionamento perto da entrada, ar-condicionado, sentadinho na poltrona, pertinho do palco... No foyer do teatro, senhoras carregavam um ar de distinção. Eu não sou fã de Chico Buarque. Eu tenho inveja dele, uma inveja incontida. Quando eu pego o violão e canto algumas de suas canções anasalando a minha voz é uma grande demonstração de inveja. Não tem problema, curto a minha inveja sozinho, já que não toco mais violão na frente de ninguém. Assumi a minha falta de competência musical.

O show começa e, logo na terceira música, aquelas mulheres distintas que eu havia enxergado na entrada do teatro, começam a se desfazer de sua dignidade. E começam a soltar suspiros, a assoviar e, pior, começam a gritar frases que me encheram da tão famosa vergonha alheia.

Maravilhoooooosooooo!, Casa comiiigggoooo, Chiccooooo! Linnnndddooooo! Eu sou tuuuuuaaaaa!

No final do penúltimo bis, sabe como é essa história de bis, né? O artista termina o show com uma música que não empolga ninguém e sai do palco. As luzes da plateia não se acendem. O público fica aplaudindo até o artista voltar. É um joguinho de cena em que todo mundo desempenha o seu papel. Então, no final do penúltimo bis – não sei quantos foram antes – uma mulher despida da distinção que ainda possuía antes do início do show, encerra a música gritando - isso mesmo, gritando -  o último verso:

Futuros amantes, quiçá 

Se amarão sem saber 

Com o amor que eu um dia 

Deixei pra você.

Só que no “deixei pra você”, ela botou o pulmão para fora da boca e não gritou. Ela urrou “deixei pra vocêêêêê”.

Será que eu estava num show de Wando? Não, além de Wando já estar morto, não vi calcinhas sendo atiradas ao palco. Teria sido um show de Fábio Jr.? Não, Fábio Jr. carece de qualidade. Difícil de acreditar, mas era mesmo um show de Chico Buarque. À medida que a senhora distinta urrava, se descabelava em um ataque de histeria, eu continuava quietinho na minha poltrona, morrendo de vergonha alheia.

Vergonha alheia? Hummm, acho que não. Eu tava era morrendo de inveja.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

The book is on the table


            Esta semana, meus filhos retornam às aulas. Vão enfrentar uma situação que está posta no Brasil há décadas e que, junto a várias outras mazelas da nossa educação, é igualmente vexatória: eles vão ter que assistir a aulas de inglês no colégio. De imediato, você poderia achar que fui acometido pela doença do antiamericanismo tão vigente na década de 70. Apresso-me logo a explicar que não é isso. O que os meus filhos vão vivenciar ao longo deste ano letivo, junto com vários outros colegas, é o mesmo que eu vivenciei, como aluno, 40 anos atrás e o que eu vivi, como professor, há mais de 30 anos. Inglês, ou qualquer outra língua estrangeira, da forma que é ensinada no colégio é absoluta perda de tempo. Haveria formas de modificar o ensino da língua estrangeira, sim, mas acho que ao longo das últimas décadas, quem regula a educação no nosso país, a galera do MEC e outras tantas instituições públicas subordinadas ao ministério, são, provavelmente, analfabetos em outra língua que não o português ou são ingênuos o suficiente para achar que no colégio, da forma que é ensinado, o aluno consegue mesmo aprender inglês ou outra língua estrangeira. Tirando essas duas opções, só falta mesmo colocar a burrice e a incompetência de quem dá as diretrizes do ensino no Brasil.

         Para que eu me faça claro, vou tomar o exemplo do meu filho Rafael. Ele vai estar numa turma em que o professor vai falar do Present Perfect e explicar que é passado, imprimir textos, alertando para as cascas de banana que os examinadores colocam nas provas. Os examinadores, quando elaboram uma prova de Inglês, adoram utilizar a babaquice dos falsos cognatos. O falso cognato é quando, no texto, aparece uma palavra como “actually” e o examinador coloca logo na  primeira alternativa a tradução “atualmente”. Actually significa “na verdade”. Ou seja, o examinador está brincando de testar o conhecimento do aluno na lígua estrangeira.  A verdade é que Rafael, estudando inglês desde os 10 anos de idade, tendo feito intercâmbio e com o grau de proficiência em inglês por Cambridge não vai conseguir extrair nada de novo da aula de inglês do colégio dele. E eu não culpo o colégio nem o professor. Eu culpo o sistema que o obriga a assistir a aula de inglês quando ele poderia estar na biblioteca estudando qualquer outra coisa ou, simplesmente, lendo um bom livro. Ele poderia até estar lendo um livro em inglês, como tarefa dada pelo seu próprio professor. Obrigar Rafael a assistir a uma aula de inglês no colégio poderia ter várias comparações.  A mais óbvia, e que há muito tempo já foi corrigida: quem é atleta pelo colégio, está naturalmente, obviamente, logicamente, dispensado da aula de educação física. Nem sei se ainda é assim. Mas, imagine o atleta de alta performance fazendo aula de educação física junto com a geração videogame/internet de hoje. Mas, os homens públicos, recusam-se a parar uma horinha para pensar no ensino da língua estrangeira. Quem sabe a língua em um nível superior, e assiste a uma aula nos moldes que é ministrada no ensino médio, tem a sensação de que está perdendo um tempo precioso. Especialmente quem vai fazer o ENEM, essa ópera bufa que o MEC impõe aos estudantes todo ano. A ideia do ENEM, com a teoria de resposta ao item, é boa, muito boa. Mas, a sua aplicação... Vocês têm acompanhado os casos absurdos na correção das redações.

         Sabe quantas horas, aproximadamente, Rafael desperdiçará este ano, assistindo a uma aula que em nada acrescentará a ele? Aproximadamente 60 horas. O pior de tudo isso é que não será um ócio prazeroso, nem o tão decantado ócio criativo. Será um ócio chato. É uma coisa mais ou menos assim: digamos que você tenha se formado em Matemática e seja obrigado a assistir a uma aula em que o professor vai explicar soma e subtração. Eu estou exagerando? Ok, então vamos aumentar o grau de dificuldade...O professor vai explicar equação de primeiro grau. E você vai ter que ouvir ele explicar isso por 45 minutos. E você já é formado em Matemática. Saco. Ou, digamos que você tenha se graduado em História e vai ouvir o seu professor dizer que Dom Pedro I foi o primeiro imperador do Brasil, que Deodoro da Fonseca proclamou a República e que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea. Sentiu o drama?

         Mas a galera que comanda a educação nesse nosso Brasil não acha nada demais nisso. Provavelmente, se eles lessem esse texto iriam dizer: “Ora, eu tenho coisa mais importante pra pensar...” “Esse cara mima o filho com curso de inglês e intercâmbio, quer mais o quê? Ele é um caso pontual, não faz parte do universo macro que temos que pensar.” A educação não é  levada a sério no Brasil e o pior é que isso não é novidade para ninguém. Essa questão da aula de inglês parece ser apenas um detalhe em meio aos imensos desafios que a educação precisa vencer no país. Mas é um detalhe tão bobo que poderia ser resolvido com meio quilo de bom senso. Mas, bom senso é uma mercadoria em falta por aqui há muito tempo.

         Boa sorte, Rafa, e não esqueça: The book is on the table.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Três pontos de vista

Paris, 29 de dezembro de 2011.

O frio no Champs Elysée é cortante em dezembro. Mesmo assim, hordas de turistas descem e sobem dos ônibus especiais, aqueles em que a parte de cima é aberta. Bem próximo ao Arco do Triunfo, naquela fria manhã, um grupo de senegaleses executava algumas acrobacias ao som de um hip hop, em volume alto, em som tirado de uma caixa acústica à bateria. Algo em torno de 150 pessoas assistiam à apresentação e se divertiam com as acrobacias daqueles cinco jovens.

Apesar do frio, o céu estava completamente azul. Não havia uma nuvem sequer. Pelo que pude perceber, de onde eu estava, eles haviam chegado ao clímax do espetáculo. Foi nesse momento que dois policiais entraram em cena interrompendo o show. Os rapazes não podiam se apresentar ali. Mas, assim? Não mais que de repente? Foi então que procurei analisar o momento, sob o ponto de vista de cada um dos envolvidos, naquele pequeno episódio em um dos mais visitados cartões postais de Paris: o público, o grupo senegalês e os policiais.

Comecei pelo lado do público que ensaiou algumas vaias aos policiais. Esse mesmo público já haveria esquecido dos senegaleses, da apresentação e dos policiais no próximo instante, quando desviariam a lente de suas máquinas e sua atenção para o próximo ponto de interesse. Quase todos os turistas são superficiais como eu.

O grupo perdeu alguns trocados, é verdade. Poderiam ter faturado muito mais com a solidariedade fast food dos turistas. Logo mais, no entanto, estariam em outro cartão postal, ou naquele mesmo, fazendo novamente a mesma apresentação calculada para arrancar moedas de 2€ de quantos turistas parassem para apreciar o seu show tão fast food quanto a solidariedade dos turistas. Mesmo os rostos de desapontamento, de uma ensaiada tristeza com a interrupção policial, faziam parte da apresentação em busca de uns últimos trocados.

Mas, então, resolvi analisar a ação dos policiais. Vi, desde a hora em que se aproximaram, relembrando ao grupo de artistas de rua de que o que estavam fazendo ali era contra a lei. Não parecia ser a primeira vez que eram advertidos. Os policiais entraram no "palco" investidos apenas da lei. Mais que isso, entraram com a certeza de que estavam agindo correta e coerentemente, já que eles são pagos para defender a lei que foi estabelecida pelos representantes da sociedade. Ao receberem a vaia, ao invés de se intimidarem, se investiram ainda mais da força da lei e se impuseram. Não houve negociação, explicação, mas não houve violência igualmente. Apenas, e tão somente, a aplicação da lei. Naquele lugar, de acordo com a lei, não pode haver apresentação de rua. 

E você deve estar pensando: "Ivanildo virou o maior reaça!"

Talvez tenha virado mesmo. Mas, imagina o caos que seria se, além dos senagaleses, aparecesse uma batucada brasileira com as mulatas de biquini, ou uma banda americana cheia de coreografias, ou uns escoceses com gaitas de fole... Será que vocês imaginam a zona que o lugar viraria?

Mas, o que realmente me impressionou foi a imagem dos dois policiais - franzinos - mas, investidos de poder e legitimidade. Eles não estavam ali apenas executando um trabalho. Eles estavam ali para defender o que a comunidade à qual eles servem decidiu. Sem violência, sem arrogância, porém firmes. Eles eram dois, apenas, mas com a autoridade de milhões de franceses que decidiram, democraticamente, que na esquina do Arco do Triunfo não vai ter batucada brasileira, nem fanfarra americana, nem escocês de saia tocando gaita de fole. E nem senegalês fazendo acrobacia ao som de hip hop. Pronto. 

Sou reaça? Talvez seja mesmo. Nos meus áureos vinte e poucos anos, provavelmente eu estaria vaiando a polícia, correndo pra cima, dando porrada, fugindo dela. Estaria protestando e adorando. Mas, isso, lá atrás, nos meus vinte anos.

Se eu tinha alguma dúvida de que havia mesmo envelhecido, ela acabou de se dissipar.

P.S. Por mais glamuroso que pudesse parecer, eu não escrevi esse texto em um café de Paris, observando parisienses daqui pra lá, de lá pra cá. Escrevi esse texto na sala de espera de uma clínica em Barcelona, onde meu filho Rafael está fazendo uma ressonância para sabermos se ele vai precisar fazer uma cirurgia de emergência.

P.S. Desespero. Ele vai precisar, sim, fazer a cirurgia. O médico disse que é quase certo ele perder o testículo esquerdo. Eu e minha esposa seguramos a onda até ele entrar na sala de cirurgia. Depois, desabamos. Choramos e rezamos muito.

P.S. Alívio. Os médicos saíram. A operação foi um sucesso. Salvaram o testículo de Rafael. Agora, deitado na cama do hotel, ao lado dele, experimento a calma de estar junto do meu filho amado, cultuando a sua recuperação. Graças a Deus.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Superficial

Chega um tempo na vida em que somos quase, tão somente, reflexões. Constantemente divagamos sobre como seria a nossa vida se, em momentos decisivos, tivéssemos seguido por outro caminho que não o que optamos. É aí onde sempre surge a pergunta:  “será que fiz a escolha certa?” Na maioria das vezes, não há uma resposta, uma escolha certa. Nós vivemos a vida da forma que ela aconteceu. Teríamos sido felizes ou infelizes? Depende da sua própria percepção. Quanto mais complexos somos, mais facilmente nos achamos infelizes. Aliás, isso é parte do pedantismo de nos acharmos mais complexos que o cara do nosso lado. Puro e simples pedantismo.

A verdade é que nós não nos pertecemos. Mas, até que ponto isso é ruim? Se pertencêssemos apenas a nós mesmos, seria, muito provavelmente, a liberdade materializada. Mas, haveria sentido? Para alguns, talvez sim.  Para mim, acho que não.

No sábado, saí para almoçar em família. Meus filhos e suas namoradas, minha filha e minha mulher. De manhã, eu já tinha levado meu filho mais novo no espanhol, passado na padaria, voltado para casa, saído novamente para apanhá-lo no espanhol, voltado pra casa. Pausa. Passar um pouco de tempo, tomar banho, apanhar a namorada do outro filho, ir para o restaurante, almoçar...Você já deve ter cansado do meu sábado que apenas chegou à metade. Um sábado corriqueiro. Um sábado daqueles que as pessoas “mais cabeça” acham simplesmente enfadonho, desinteressante, sem graça, brega mesmo. Mas, se você chegou ao mesmo momento da linha do tempo que eu, em que as reflexões ocupam mais de sua vida, considere a possibilidade contrária. Você poderia simplesmente ter acordado e não ter tido ninguém para levar em canto nenhum. Esqueça a padaria. Esqueça o almoço, os filhos, as noras, a filha e a mulher. Considere a possibilidade de, sozinho, ver o tempo passar,  o dia se esvaindo pela janela. Ou, alguns anos mais pra frente, você acordar e ter a certeza de que ninguém vai mais precisar de você ou, pior, ninguém vai mais passar para ver você. Que o seu telefone não vai tocar. Que não há mais ninguém em sua vida, simplesmente porque você optou por não pertencer a ninguém além de a si próprio. Legal...Você manda na sua vida, ninguém diz o que você deve fazer, você não deve satisfações a ninguém, não tem que ajudar ninguém, não tem que atender telefone de ninguém, não tem que sair com ninguém. É aí que você faz uma daquelas reflexões tão profundas quanto um buraco negro: eu estou só. E, ainda assim, poderá chegar a duas conclusões: 1 - Era exatamente isso que eu sempre quis. Ou, 2 - Fodeu. Estou completamente só. E agora?

Já falei aqui que o tempo tem sido responsável por me tornar superficial. Expulsei Buñuels, Bergmans, Pasolinis e Fellinis da minha vida. Expulsei as leituras pesadas, tratados de sociologia ou economia. Não quero saber de Adam Simth, Samuelson ou Keynes. Freud não me interessa mais. Demoro séculos em livros fáceis. O mais pesado a que eu me permito assistir, hoje, é um Almodovarzinho. Ora, não me deem porrada. Até Woody Allen se superficializou. E, ao se superficializar, tornou-se menos hermético e menos chato. E você, superintelectual, deve estar pensando – “ele considera Allen hermético, hahahaha” Aqui está uma das vantagens da idade – você dá menos importância ao que as pessoas pensam de você. Por que eu tenho que assistir a um filme chato e profundo? Não tenho, mesmo.

Já anseio pelo próximo sábado em que acordarei meu filho às 7 da manhã para levá-lo ao espanhol. Depois vou passar na padaria, voltar, tomar café, apanhar minha filha, voltar, apanhar meu filho no espanhol, o outro filho acordou, levá-lo na casa da namorada, voltar, quem sabe almoçarmos juntos outra vez. À noite, vou esperar, contando os minutos, pelo momento em que todos estarão em casa novamente.

Como eu gosto de ser assim tão superficial.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Ela meteu o pau!

Pronto, um textinho sem compromisso.

Tem dois tipos de publicitário: aquele que acha que todos os outros publicitários são fraquinhos demais e aquele que detesta tudo que faz. Eu sou um daqueles que tende sempre a ver defeito em todos os meus próprios trabalhos. Acho sempre que o meu texto poderia ficar melhor, que a edição não ficou legal, que eu poderia ter feito um plano diferente na gravação... Ou seja, eu sou um inseguro incorrigível, ao contrário de um monte de publicitário que conheço. Mas é super normal publicitário ter ego inflado. Essa profissão da gente é muito valorizada. A galera de criação, então, essa se acha mesmo. E aqui vai uma confissão: há momentos em que eu me acho também. Tem hora que eu encarno o espírito.


Uma das vezes em que me achei foi quando a gente fez a ação para a gravação do institucional de fim do ano de 2010 da Globo Nordeste. Uma ação de marketing, na praça de alimentação do Shopping Recife, com cara de flash mob. Eu estava me achando porque a gente conseguiu montar uma superestrutura com 17 câmeras, som ao vivo, cantores, coreografia, uma confusão de mega produção. O sonho de todo diretor. Diretor adora trabalhar com superestrutura. Aquela coisa de "luz, câmera, ação!" bem Hollywood. Mas, pra usar uma expressão bem pernambucana, eu estava "torando o maior aço". Eu tinha assistido a várias ações assim lá no youtube, mas nenhuma envolvia dança e música ao vivo ao mesmo tempo. Não sabia como o público ia reagir, não sabia se o som ia entrar na hora certa, se os cantores iam entrar na hora certa, se as câmeras iam funcionar na hora certa. Apesar de gravado, era uma coisa ao vivo, por mais paradoxal que isso possa parecer. E eu não tenho estômago pra fazer coisa ao vivo. Ao longo de toda minha vida, trabalhei produzindo comerciais. Ou seja, você leva duas horas e meia pra fazer um take e refaz o mesmo take um monte de outras vezes. E, quando o diretor é inseguro... Vixe! Pois é... No flash mob, eu não poderia fazer isso. Eu estava em pânico. E olha que eu tinha, na parte técnica, os melhores profissionais da Globo, comandados por Arísio Coutinho, a galera do Estúdio Fábrica com uma tecnologia de som fantástica, Mariângela Valença cuidando da coreografia, a minha equipe, extremamente competente, inteirinha do meu lado e, mesmo assim, eu continuava "torando aço". Eu sentia o espírito de Celso Coli, diretor regional da Globo, que estava fora do país, com a foice e o manto da morte sobre minha cabeça, caso aquele troço desse errado. Hahuhauhauh. Estou sendo injusto com Celso. Afinal, ele sempre me apoia nessas ações.

Marquei a hora de iniciarmos: 11h30 em ponto. Eu daria o sinal por rádio e celular. Pois não é que o meu relógio quebrou às 11h25. Às 11h30, todo mundo olhando pra mim e eu olhando para o relógio que não chegava às 11h30. E a galera esperando, até que alguém chegou pra mim e disse: Ivanildo, são 11h33, o que você está esperando? Mandei o relógio pro inferno. Aí começou uma tentativa desesperada para mandar o pessoal rodar o playback do áudio. O rádio deu pane, o celular chiava. Ahrhhharrrrrr!!!!!! Mas, finalmente, começou. Surpreendemos todo mundo. As três apresentações foram um sucesso, deu tudo certo, nada falhou. No youtube, recebemos centenas de comentários positivos, alguns emocionados mesmo, especialmente de pernambucanos que estavam fora do país há muito tempo. Outros, naturalmente, meteram o pau. Mas teve um comentário em especial, metendo o pau, que eu adorei, porque, ao ler, eu pude viajar na história da figura que escreveu. Ela conseguiu me transportar para a realidade dela de uma forma que eu me senti presente em cada canto que ela descreveu. A autoria é de uma mulher, como você poderá sentir ao longo do texto. E, sinceramente, acho que ela é redatora publicitária, e das boas. O texto foi, mais ou menos, assim:

"Você leva meia hora pra estacionar seu carro nesse shopping do inferno. Sai de loja em loja pra comprar presente até pra sogra. Volta pelos corredores, cheia de sacola, esbarrando no povo, com um menino chato a lhe aperriar, gritando que quer porque quer um diacho de um McFlurry. Você vai, senta no estabelecimento do palhaço, enche a boca do menino de sorvete e, quando acha que vai ter cinco minutos de sossego, vem este monte de gente cantando musiquinha da Globo. E de sombrinha! É aí que você torce mesmo pela Record..." Exagerada, a moça! Não precisava terminar assim numa situação de desespero.

Meteu o pau no meu trabalho, mas com criatividade maior do que muito publicitário por aí. 

Oxe, Ivanildo, e tu não disse que tu não fala mal dos teus colegas? Sei não, viu!

Se você não assistiu ao vídeo ou quiser revê-lo, acesse o link abaixo.

http://www.youtube.com/watch?v=ZQOU8JSHMBw

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Até um dia

Eu tinha 9 anos de idade e estava, como se dizia antigamente, na 4ª série primária. Naquela época, o ensino de qualidade estava concentrado nas escolas públicas, e eu estudava no Grupo Escolar Martins Júnior, na Torre, um bairro da zona norte do Recife. Com a relativização de tamanho que toda criança faz, eu achava o Grupo Escolar monumental. Hoje, tenho dúvidas se cheguei a conhecer todos os cantos da escola, mas imagino que não fosse tão grande assim. Lembro que havia escadarias que levavam à porta principal e, antes dela, uma sacada grandiosa onde ficavam concentrados os alunos antes do toque para entrar. E era dessa sacada que eu esperava pelo início da minha felicidade diária. Era dessa sacada que eu a via chegar todos os dias. Negros cabelos densos repartidos de lado; maquiagem leve, mas com um batom vermelho vinho, cuidadosamente aplicado, que ressaltava os seus lábios perfeitos; uma elegância que eu distinguia ao longe, mais uma vez, considerando a relativização de tamanhos e distâncias para uma criança. Esse longe era apenas o outro lado da rua. Ela descia do carro e, para mim, naquele exato momento, era como se todas as outras pessoas desaparecessem. Era apenas ela que eu via. Ela era Dona Dulce.
Na minha época de primário, não havia ainda essa história de Tia. Tia só se fosse irmã do meu pai ou da minha mãe. Por mais clichê que seja, Dona Dulce, a minha professora primária, foi, de fato, a primeira paixão da minha vida. Morria de ciúmes do marido dela, o bigodudo que dirigia um fusca vermelho e que a trazia, todos os dias, para ficar a manhã inteira junto de mim. Naturalmente, eu sentava na primeira fila, prestava atenção até na respiração dela, não falava com ninguém...Eu só tinha olhos e ouvidos para Dona Dulce.


Tenho certeza de que foi por conta da minha paixão por Dona Dulce, e exclusivamente por isso, que as minhas notas foram excelentes apenas até a 4ª série. Terminado o primário, fui para uma outra escola e foi quando a minha vida transformou-se numa verdadeira esbórnia, uma zona total. A minha paixão por Dona Dulce passou e era um outro momento, completamente diferente do que eu havia vivido até então. Agora, o meu novo colégio, também público, ficava muito distante de minha casa. Aquele colégio era, sem dúvida, o admirável mundo novo a que Aldous Huxley se referiu em seu livro. Como não havia nenhuma Dona Dulce e, sim, inúmeros outros novos interesses, as notas, naturalmente para o meu desespero, despencaram. Aliás, essa foi uma luta permanente pelo resto da minha tumultuada vida acadêmica. Eu me recusava a estudar o que eu tinha dificuldade para aprender. E resolvia estudar apenas aquilo que me dava prazer. Obviamente, uma fórmula que não funcionou. Nenhum dos professores relegados por mim aceitou ver que eu era genial nas outras matérias...Tá, tá bom. É verdade, você tem razão. “Genial” é propaganda enganosa. Um exagero dos diabos.

Mas por que isso de revisitar a 4ª série primária e a minha paixão por Dona Dulce? Talvez porque tenha sido o primeiro evento de relevância da minha vida que eu me recorde. Não consigo lembrar de nada antes disso. Essa época é como o início da minha linha da vida. É como se todos os acontecimentos que me trouxeram até aqui tivessem começado naquele Grupo Escolar. É uma sensação parecida com a que temos quando começamos uma edição, em que escolhemos as cenas que vão formar o timeline do nosso filme. É exatamente assim que funciona a nossa vida: um linha de tempo de edição. À medida que os eventos vão acontecendo, a gente vai colocando-os nessa linha. Cada período forma um filme. E esses filmes vão ficando para trás, e a gente vai se desapegando de pessoas e coisas que fizeram parte dele. Quantos amigos ficaram pelo caminho? Tantas lágrimas. Tantas dores. Quantos escaparam? Quantos morreram? Nós – eu e você - sobrevivemos. Superamos a dor, nos desgarramos dos momentos tristes e até mesmo dos alegres, nos desgarramos de todas as coisas. Tudo foi ficando para trás, exatamente como na linha de tempo da edição. Fomos construindo novas passagens, criando novas cenas. Talvez seja por isso que, imediatamente antes da morte, nós assistimos ao filme inteiro da nossa vida. Dizem que é exatamente assim, que a vida passa inteira à nossa frente, como se fosse um filme. Se for, é legal. Eu sou cinéfilo mesmo, adoro um cineminha.

Hoje, estou colocando para trás mais um bloco na minha linha de tempo. Foram quase quatro meses contando histórias, rindo ao escrevê-las, organizando palavras que soltas não significariam nada. Foi delicioso dividir minha vida com você, especialmente se isso arrancou um sorriso seu. Estou me desgarrando dos textos, das minhas palavras, estou deixando que eles façam parte do meu passado. Estou partindo e deixando-os partir para, quem sabe, resgatá-los no futuro. Como resgatamos memórias perdidas, como resgatamos amigos, como resgatamos a nossa própria vida. Foi muito bom saber que você me leu ao longo desses quinze textos. Foi melhor ainda experimentar o gosto de contar as histórias que contei. Foi como vivê-las novamente, cada uma delas. Valeu a pena. Obrigado.

“Até um dia
até talvez
até quem sabe…” (João Donato)

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Viva a Tecnologia!

Houve uma época em que a tecnologia não jogava a favor dos publicitários. Tudo era feito de forma meio artesanal. Se hoje queremos colocar a chamada num anúncio para jornal, por exemplo, escolhemos a fonte, o tamanho da fonte, crescemos ou diminuímos proporcionalmente, decidimos entre milhares de cores, mexemos pra cá, pra lá...Uma imensa liberdade para, com rapidez, alcançarmos os resultados que desejamos. A tecnologia, hoje, permeia todos os setores do nosso mercado publicitário.

Comecei minha vida publicitária como fotógrafo. Sempre fiquei dividido entre as paixões por fotografar e escrever. Na fotografia, a tecnologia também jogava contra. Basta dizer que não havia Photoshop, a salvação dos fotógrafos e diretores de arte dos dias de hoje. A bem da verdade, a salvação de todos nós. Naquela época, ainda não havia foto digital. A foto tinha que sair boa e tudo era muito caro: o filme era caro, a revelação era cara, era um Deus nos acuda. Para compensar, no entanto, havia o glamour. O laboratório para fotos preto e branco, com aquela luz vermelha, deixava as mulheres apaixonadas. Muitos romances tiveram, como palco, o ambiente de sonho do laboratório. Como nada é perfeito, havia o odor insuportável dos produtos químicos. Mas a paixão dava conta de aliviar o cheiro fétido dos líquidos que deixava todos os laboratoristas com uma tremenda cara de morte, personagens saídos de algum poema de Augusto dos Anjos. Aldemar, que trabalhava comigo, tinha essa cara.

Tinha o profissional que criava, tinha o redator, tinha o cara que fazia o layout e, por fim, o artefinalista, o último ponto de parada antes de o anúncio seguir para a gráfica. Mesmo o anúncio de jornal, que hoje segue tranquilamente pela internet, naqueles tempos, tinha que ser mandado pra gráfica para fazer o fotolito e, só depois, ser levado para o jornal. Os caras que faziam os layouts eram verdadeiros artistas. O que a gente faz hoje, no computador, com referências, os caras faziam na mão, pintando o que vinha na imaginação. O layout era normalmente produzido em tinta guache. Com a chegada da tecnologia, muitas ferramentas foram desaparecendo. Acho que nenhum estudante de publicidade, hoje, sabe o que diabos era uma folha de Letraset. Funcionava assim: para colocar uma chamada, você tinha que aplicar letra por letra, da superfície plástica para o papel. Havia inúmeras fontes e diversos tamanhos. Não sei como conseguíamos tempo para fazer um anúncio.



O fotolito também morreu. As boas gráficas, hoje, já utilizam a tecnologia CTP (Computer to Plate), ou seja, do computador direto para a chapa. Houvesse essa tal tecnologia lá nos idos dos anos 90, eu não teria me metido na enrascada em que me meti.

Criamos um layout para o material de reeleição do deputado Harlan Gadelha. Para economizar papel, a estratégia era fazer de uma maneira em que todos os formatos fossem contemplados: santinho, formato 16, formato 8, formato 4 e formato 2. Quando a gente cria alguma coisa, fica sempre na expectativa do que vai ser o produto final. É sempre assim. A gente fica tenso, achando que esqueceu alguma coisa, que tem uma palavra errada, que isso, que aquilo. Uma verdadeira neura. Fui pessoalmente à gráfica ver o material pronto. Ao ver os impressos, algo muito estranho me bateu. Tomei um cartaz nas mãos. Eu olhava para o cartaz que olhava de volta para mim. Tinha alguma coisa errada e eu não sabia definir o que era. A peça final não tinha a harmonia do layout. Passaram-se alguns segundos – que, para mim, pareceram uma eternidade – quando, num repente, tudo ficou claro na minha mente. A porra da fotografia do deputado tinha sido impressa ao contrário. Por isso a falta de harmonia, por isso aquela coisa estranha, por isso que eu tive aquela sensação, aquela sensação…Aquela sensação de… Fodeu!

Era o material todo de campanha. Na hora de gravar o fotolito na chapa, a gráfica deixou o texto certo, mas inverteu a foto do homem. E agora? O que fazer com aquela montanha de papel? Entregar o material ao comitê do candidato, sem alertar para o erro, nem pensar. Até que chegamos a um consenso. Vamos reunir o candidato com a família, entregar os impressos e dizer que tem um problema com o material. Vamos ver o que eles percebem.

A foto invertida de Harlan Gadelha tirava toda a harmonia do layout


Entreguei o material. A primeira reação de todo mundo: família, candidato, aspones – politico que é político tem aspone – todos acharam ótimo. Os aspones, então, que ficam prestando atenção na reação do chefe e da mulher do chefe, ao perceberem o ar de felicidade, derramaram-se em elogios. É o puxa-saco, o baba-ovo, o xeleléu. Eles não têm opinião própria. Sempre acham o que o chefe acha mais 20%. Se o chefe acha bonito, eles acham lindo. Se o chefe acha ruim, eles acham péssimo. E foi aí que eu entrei com o meu texto:

- Deputado, o material está com um problema.

Silêncio geral. Tensão no ar. O sorriso dos aspones desapareceu. Peço para todos tentarem identificar o problema. Ninguém, literalmente, ninguém aponta o erro na inversão da foto. Todos desistem, pedem para eu revelar o problema, o que faço prontamente. Os aspones esbugalham os olhos em direção primeiramente a mim e depois ao chefe e à mulher do chefe, esperando pela reação do candidato para assumirem a reação mais 20%. Não esqueço jamais de como Harlan assumiu uma postura humana, até humilde, nesse momento, mesmo em condições morais de recusar todo o material.

- Se minha mulher, que dorme e acorda comigo todo dia, não conseguiu perceber é porque o material tá bom demais. Tá aprovado!

Os aspones, naturalmente, gargalharam da piada do chefe e concordaram que o material estava ótimo, que estava maravilhoso, que estava sensacional para começar a ser distribuído. Aspone é uma graça. Foi um sufoco, um dos momentos mais tensos de minha vida profissional. Escapei de ter um dos maiores prejuízos da minha carreira. Hoje, com os mecanismos de controle que existem, é praticamente impossível acontecer um erro assim. Viva a tecnologia!