quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Os Ídolos

Dediquei 10 anos de minha vida ao ensino. Muitas das minhas alunas e alunos têm contato comigo através das redes sociais. Ao longo de minha vida lecionando, tentei imitar os meus melhores Professores, mas de todos os grandes Mestres de minha vida, duas Professoras tornaram-se ídolos para mim. Uma delas é Fernanda Bérgamo. Eu a idolatro tanto que nem consigo dormir se não sentir a presença dela ao meu lado. Escolhi Fernanda para ser a minha companheira de vida. Se, no entanto, eu tirasse todo o sentimento que tenho por ela, eu ainda veria Fernanda como ídolo profissional. Já assisti a inúmeras de suas aulas e sempre me encanto com a capacidade de motivar os alunos e de simplificar temas árduos para a nossa compreensão. Quer um exemplo? Você sempre esquece a grafia correta de em cima e embaixo? Ela manda você fazer o numeral 2 nos dedos ou, para quem preferir, o “V”de vitória ou, ainda, o gesto que simboliza paz e amor. Pronto. Embaixo, onde os dedos se unem, é junto. Em cima, onde os dedos se afastam, é separado. Simples, não é? E fica ainda mais fácil vendo no vídeo que ela compartilhou nas redes. Pronto, Fernanda Bérgamo é assim, paralelamente à capacidade de transformar a aula numa aventura de conhecimento, transforma mistérios complexos em soluções tão simples.

Semana passada escrevi uma crônica a partir do encontro de amigos de adolescência. E aí, estava deitado, brincando com o nosso cachorro e ela me diz: “Irandé acaba de fazer um elogio ao seu texto.” Aí, eu me abestalhei. Irandé Antunes é o meu outro ídolo. Fui aluno de Irandé na Faculdade de Letras, ali pelos meus 25, 26 anos. Nos dias modorrentos, a aula de Irandé era a redenção. Se eu tenho de defini-la para você compreender, eu digo que ela é uma Encantadora de Gente. Porque Irandé não precisa de mais que 30 segundos para hipnotizar uma plateia. Ela começa a falar, sem levantar o tom de voz, e a plateia para o que está fazendo e tem o olhar impelido a encontrar os olhos de Irandé. Não importa onde você esteja sentado, a sensação é a de que ela está falando exclusivamente pra você. E aí você entra num estado de delírio em que as imagens alucinógenas saem da boca de Irandé e começam a construir um cenário no qual você se vê envolvido. Você passa a se ver onde ela quis que você estivesse para vivenciar as palavras dela. Você é circundado por imagens holográficas como numa experiência futurística em que palavras se transformam em imagens que se movimentam à sua volta, imagens que lhe envolvem e você fica naquele estado de deslumbramento. Ah, em tempo, Irandé não precisa de Datashow pra criar esse cenário. O cenário sai diretamente da boca dela para preencher a realidade alternativa de quem a está ouvindo.

Pois, alguns anos atrás, fui convidado pela Coordenação do Curso de Letras da Fafire para dar uma palestra, num evento em comemoração a alguma coisa que já não me lembro. Não importa, sou assim mesmo. Preciso da assistência permanente dos meus amigos para lembrar momentos que vivenciei num passado remoto ou recente. Mas dos fatos, ficam detalhes que não me saem mais da lembrança. É como no poema de Drummond, “de tudo fica um pouco” – Resíduo. Liliane, a coordenadora do Curso de Letras, veio me mostrar o programa antecipadamente e, no impresso, vi um erro terrível: estava lá que a minha palestra seria após a de Irandé. Ali estava o erro. Depois que Irandé fala, ninguém tem mais nada a dizer, nada mais a acrescentar. O que, então, eu ia fazer lá naquele auditório? Disse a Liliane que não haveria possibilidade de eu entrar após a Encantadora de Gente. Liliane ouviu e, conhecendo a capacidade da colega de profissão, entendeu e concordou.  Liliane sabia exatamente do que eu estava falando e fez a mudança no programa. No dia do evento, eu estava lá, cheio de aparatos tecnológicos, telas no Datashow, filmes e não sei mais o quê. Dei minha palestra e, quando terminei, Irandé foi chamada. Ela disse que havia ficado encantada com todas aquelas coisas que eu mostrei e, humildemente, quase se desculpando, alertou a plateia de que ela não tinha levado nada. Nenhuma telazinha. Que ela “só” ia falar. Como se precisasse ela levar alguma coisa. Com menos de 30 segundos de sua fala, tive a curiosidade de olhar para a plateia. Todos já estavam com aquela boca a meia abertura, olhos vidrados, completamente entregues à maravilha da fala da Professora Irandé Antunes, a Encantadora de Gente.


A propósito, se vocês gostam um pouco do que eu escrevo, a gente deve isso a Irandé, que foi minha Professora de Técnica de Redação I e II.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O Tempo



Eu havia escolhido um lugar à mesa que me desse amplitude de visão sobre todo o local. E foi assim que eu vi aquele senhor entrar no restaurante e, sorrindo, apontar em minha direção. Não, eu não o conhecia. Pelo menos, essa foi a minha primeira impressão. Retribuí o seu sorriso, sem me importar se estaria retribuindo ou se ele havia dirigido o olhar, de fato, para outra pessoa e não para mim. Eu sou mestre em retribuir sorrisos e acenos não dirigidos a mim. Todo mundo já pagou o mico de retribuir um aceno ou um sorriso que não era para si. Eu sou campeão nessa modalidade. Com a minha péssima memória, fico aflito de não estar retribuindo a atitude de uma pessoa que me seja muito próxima, quer por amizade ou da minha atividade profissional. Quem não me conhece de perto já me salpicou a pecha de ser metido, imagine se eu não retribuir a um cumprimento. Então, para evitar aumentar essa fama indesejada, vivo pagando o mico de retribuir acenos e sorrisos que não são para mim. Acho que só perco para político que, por dever de profissão – e cara de pau, mesmo – sai dando a mão pra todo mundo e distribuindo sorrisos como se fossem notas de dinheiro em dia de eleição.

Marconi já havia chegado. E aquele senhor que mandou um aceno para mim chegou à nossa mesa. E veio sorrindo e me dando os parabéns pelo aniversário. Oxe! Não tive dúvida, ri e o abracei como se o conhecesse desde sempre. Cumprimentei a esposa dele. E Marconi, sem imaginar que eu não tinha a menor ideia de quem se tratava, levava a situação adiante como a coisa mais normal do mundo. Finalmente, o senhor falou. Eu definitivamente conhecia aquela voz. Exatamente! Demorei alguns segundos para fazer todas as sinapses, tomar um bonde no túnel do tempo e, finalmente, reconhecer que aquele sorriso e aceno se tratavam de Sérgio Lyra Aguiar. Aquele senhor. Quando foi exatamente que nos transformamos em senhores?

Fazia uma vida e meia que eu não via Sérgio. Ele tinha se mudado para a terra de trump quando trump era ainda, apenas, um filhinho de papai rico. Sérgio era meu parceiro de aventuras com as letras. Fomos os editores de um jornal alternativo durante o nosso Ensino Médio, que nesse tempo era chamado de Segundo Grau... Que nada, era ainda mais antigo. O Ensino Médio, na minha época, era chamado de Científico. Como achávamos o folhetim do Colégio Esuda um “chapa-branca”, resolvemos fazer o nosso próprio jornal. Jornal com J maiúsculo. Foi um parto negociar com o diretor-Pedrão a exposição do jornal. Isso mesmo, exposição. Imprimir um jornal alternativo ao “chapa-branca” estava vetado pelo diretor-Pedrão. O jornal tinha que ser mural. Sabe aquela coisa que fica dentro de um quadro de aviso com uma dificuldade monstra para ser lido? Pois era o nosso jornal, que tinha o sugestivo nome de DIÁLOGO, assim mesmo, tudo em caixa alta. Cada edição do DIÁLOGO era um parto de trigêmeos. Pedrão riscava todos os nossos textos. Eu e Sérgio ficávamos horas no gabinete do diretor-Pedrão tentando salvar a linha mestra da nossa experiência jornalística. É verdade que a gente não perdoava. Estávamos no extremo do nosso radicalismo dos 16 anos. Pedrão explodiu em fúria, numa das edições, batendo na mesa, quase quebrando o vidro, quando escrevemos um artigo com o título de “DECAPITADAS”. Ele gritava, urrava, em tom de espanto questionador: “Decapitadas??!!! DECAPITADAS??!!! As árvores foram POOOODADAS!!!!” Pedrão tinha mais ou menos uns 170kg, distribuídos aleatoriamente pelo seu 1,95m de altura. Entenda esse aleatoriamente como quiser. Assustador. Mas a verdade, para a nossa vaidade, é que o jornal da gente fazia o maior sucesso. No dia do lançamento havíamos feito uma postagem que na época era buchicho, espalhando que vinha bomba! Foi um tumulto, todo mundo querendo ler! A gente, olhando de longe, orgulhoso do nosso filho(s).

Voltando ao restaurante, pouco depois, chegou Potó, apelido que Alexandre Rossi conquistou por sua impertinência contra um colega de sala. O cara não aguentava mais a “encheção” de saco de Alexandre e gritou com todos os pulmões – e mais um emprestado do amigo CDF do lado – POTÓÓÓÓ, desgraçado!!!! Pronto, ficou para sempre. Olhando Alexandre do outro lado da mesa, eu tive a noção exata de como o tempo havia passado. Não havia um único cabelo preto. Todos brilhantemente brancos, resultado do tempo, de aperreio ... Como todos nós. Muitas vezes, a vida é aperreio, não é? E parece que todo mundo tem. A gente não se dá conta de como o tempo passou até olhar para alguém que a gente não vê todos os dias e faz a autorreflexão: “como envelhecemos!” Ou não faz a reflexão e pensa: como ele está acabado. Ah, a ausência do espelho, nesse minuto exato, faz com que a realidade seja turva para os olhos. Envelhecemos todos. Mas não é de todo ruim. Dizem que única vantagem da idade é a experiência, mas não vale muito porque não a tivemos quando jovens. Ainda bem que não a tivemos. A vida teria sido chata se a tivéssemos vivido com a experiência que temos hoje. Talvez eu não tivesse pulado de paraquedas com o avião em pane, ou não tivesse sofrido o acidente de moto, ou não tivesse escorregado pelo asfalto entrando embaixo daquele caminhão... Meu anjo da guarda ganhou hora extra no relógio de ponto do céu. Fez um esforço imenso para me manter aqui na terra.

Os meus cabelos e os de Marconi, longos, batendo nos ombros, ficaram lá em 1975. Podíamos ter vivido mais próximos, eu e esse irmão. Quando chego lá no Memorial, me apresento como irmão bastardo dele, e digo que sou resultado de um caso extraconjugal de seu Inácio, pai de Marconi. Se seu Inácio descobre que eu tiro essa onda, não tem anjo da guarda que me salve. Pense num “homi brabo”! Tocamos muito violão e cantamos juntos muitas canções inesquecíveis. “Blowing in the Wind”, de Bob Dylan, era a única música que eu sabia tocar na gaita e a única que ele sabia tocar no violão. Um sucesso nas mesas dos bares de Olinda que era onde a nossa alma se regozijava, entre goles de cerveja e pedaços de agulha frita. O tempo foi bom com a gente. Desde a adolescência. Fizemos muita farra, ficamos estressados pra passar no Vestibular, construímos nossas famílias, estamos quase completando o relógio do download. Mas isso, a gente nunca sabe quando conclui. Ninguém, não é mesmo?

Aqui, do meu ponto de vista central, vejo a todos num delicioso semicírculo. É bom olhar pra trás e ver que continuamos na estrada, agora, mais perto do meu meio-irmão (já que eu sou bastardo). A vida nos colocou de volta no caminho um do outro. E não poderia haver nada de melhor. Não é que tenhamos nos separado, mas a vida aprontou, lá atrás, uma ou outra peça para nos deixar sem fazer parte inteira (se é que isso existe) da vida do outro. Mas no fim, como a vida também é sábia, nos trouxe de volta à mesma estrada. Quem sabe um dia, pegamos uma mesa e cantamos junto “Sinal Fechado”, “olá, como vai”, “eu vou indo e você, tudo bem?” ou arrasta uma “Orora”, com os breques todos sincronizados. O violão ainda toca o coração. Não sei é se eu tenho dedo e mão!

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Contra a Corrente

Estou com a sensação de que,  de uns anos para cá, tenho me colocado contra a corrente. Assim, no verão, quando forma-se uma horda em direção a Porto de Galinhas, eu pego a estrada para Gravatá. Nos meses de junho e julho, quando uma multidão procura Gravatá, eu quero ir para Porto de Galinhas. Tenho pavor a muita gente, a badalações, a aglomerações unânimes.

Estou chegando de Montevidéu. Por lá, está frio, a temporada em Punta del Este acabou, e suas lojas e restaurantes têm espaço bastante para mim. O Uruguai me impressionou. Enquanto o Brasil é a sexta economia do mundo, o Uruguai é a 92ª. No entanto, tive o sentimento de que tudo funciona bem direitinho.

Rossana Menezes, uma amiga que, diferentemente de Luiza, resolveu viver no Canadá, relatou alguns meses atrás que, ao perder o seu iPhone, foi procurada por quem o achou para devolvê-lo. Pensei: isso é coisa de hemisfério norte. Quebrei a cara: na rodoviária de Punta del Este, comprei uma água mineral e a esqueci na lanchonete. Já acomodado em minha poltrona, vi o gerente da lanchonete subindo de ônibus em ônibus, só descansando quando me encontrou, para entregar a garrafa de água pela qual eu havia pago. Fiquei encantado.

Vi outras coisas no Uruguai que me deixaram com um certo sentimento de inveja: os inúmeros gramados são extremamente bem cuidados, os públicos e privados, independentemente do poder aquisitivo. Mesmo nas residências mais humildes, o jardim é impecável. 

Vi uma viatura policial mandar um motorista tirar o seu carro de cima de uma calçada às 6:30 da manhã de um domingo, no final de uma balada. Mas isso sem achaque. O policial nem desceu de sua viatura. Apenas sinalizou para o motorista infrator. Vi o motorista do meu táxi parar em todos os sinais vermelhos às 3h da manhã. 


Vi vários carros estacionados no gramado de frente para o Rio da Prata com casais que, sem medo, passaram a noite namorando e, no início daquela manhã de domingo, se espreguiçavam tranquilos, cheios de ressaca do amor da madrugada.

Como nada é perfeito, acho que todo mundo em Montevidéu tem cachorro. O que não seria um problema se a população, ao levar os seus fiéis amigos para passear, levassem também saquinhos para recolher os dejetos dos bichinhos. Depois de vários dias, numa verdadeira corrida de obstáculos, me distraí e afundei o meu pé num montevideu de cocô de cachorro. Voltei a me sentir no hemisfério sul. 

Recebi um texto de um sociólogo sobre as maravilhas do Brasil. Um texto superotimista, botando para arrombar nos europeus e dizendo que, por sermos amáveis, afáveis e flexíveis, faríamos uma bela Copa do Mundo. Porque somos o país do futebol e, se o plano A não der certo, temos o plano B e o plano C e tudo ficará bem direitinho. Um texto bonitinho, mas ordinário. Um texto bem ufanista, fazendo com que eu me sentisse no Governo do famigerado Garrastazu Médici. Uma coisa bem ao estilo da propaganda da ditadura naquela época - Brasil: ame-o ou deixe-o. 

Tudo bem se eu for rotulado de xenófilo. Assumo a minha xenofilia e confesso que adoro quando estou na rua e não preciso me preocupar se vão roubar uma droga de um celular; adoro ver que é possível parar no sinal vermelho às 3 da manhã, pelo simples prazer de cumprir a lei; adoro andar sem medo, mesmo que seja à noite; adoro não ter que me preocupar se vão furar a fila... Mas o feriadão acabou e é hora de voltar pra casa. No aeroporto de Guarulhos, trato de seguir os conselhos veiculados nas emissoras de tv: fique o tempo todo de olhos vidrados nos seus pertences porque, acredite, os aeroportos estão cheio de larápios. Isso mostrado pelas câmeras da própria Infraero. As câmeras registram as ações, mas as autoridades não prendem ninguém.

Sei que estou amargo, mas eu preferia só ter que me preocupar em desviar do cocô dos cachorros.

quarta-feira, 25 de abril de 2012


Senhoras distintas

Todos nós ficamos abobalhados com os ídolos. A sensação de encantamento permeia o nosso espírito à mínima possibilidade de estarmos frente a frente com eles.
Eu estava começando a minha carreira profissional, na área de direção de vídeo, quando fui convidado a fazer um “sangue azul” que, explique-se, é um termo usado pela galera de produção para indicar ausência total de verba por parte do cliente. Ou seja, grana zero. O sangue azul em questão era pra gravar um depoimento em favor de um candidato a vereador, o grande comunista Paulo Cavalcanti.  E quem ia gravar o depoimento? Ninguém menos do que Jorge Amado.

Eita pau!

Fui apresentado aos livros de Jorge Amado por minha irmã no início da minha adolescência. Capitães de Areia me prendeu às suas páginas e como foi difícil me despedir ao chegar à última delas. Tantos outros vieram: Mar Morto, Tieta, a trilogia Subterrâneos da Liberdade... Jorge Amado, para mim, não era de carne e osso. E eu ia conhecer a divindade pessoalmente. E mais: ia dirigir Jorge Amado! Início de carreira e eu ia dirigir Jorge Amado. Pra mim, pouco importava se era depoimento para vereador ou sangue azul.

Cheguei mais cedo no local de gravação, a equipe montou os equipamentos, checamos o microfone pelo menos cinco vezes. Tudo pronto para receber a divindade que estava descansando depois de ter enfrentado um voo de Paris a Recife. Em alguns instantes, ele surge na sala. Meu coração acelera. Putz, era a divindade materializada em carne e osso. Ele se dirige às pessoas que estão no set, todas fãs exatamente como eu. E aí ele se dirige a mim.

-       “É aqui que eu vou sentar?”
-       “Isso mesmo, seu Jorge.” Respondo com a voz trêmula.

Aí explico que ele vai ter 50 segundos para falar e que, para auxiliá-lo, eu avisaria quando chegasse aos 30” e aos 40” para, então, ele fazer o arremate. Fiz exatamente como prometi. Só que Jorge Amado ignorou os meus sinais e passou dos 50 segundos, 60, 70, 80, concluindo a sua fala aos 92 segundos. Eu, meio sem jeito, chego junto dele e falo completamente embaraçado.

-       “Seu Jorge, o tempo estourou...”

Ele nem discutiu comigo. Tirou o microfone de lapela, me entregou e disse, bem baianamente: “Depois, você edita aí.” E se levantou.

O que eu ia dizer pra Jorge Amado? Ia dizer que não? Que ele tinha que repetir? Murchei o meu discurso de diretor. Isso é o que acontece quando você está frente a frente com o seu ídolo. Você perde a força e fica incapaz de realizar o seu trabalho de forma competente. Se ele não fosse um ídolo para mim, quando tivesse falado, “depois, você edita aí”, eu teria respondido ”edita aí porra nenhuma, meu velho. Tem que fazer tua fala no tempo”. Agora, imagina você, eu falando nesses termos pra Jorge Amado. É, não dá nem para imaginar. Os ídolos fazem a gente perder a dignidade.

Aí, por falar em perda de dignidade, no fim de semana passado Recife recebeu ídolos de vários públicos. Paul McCartney, ex-Beatle, foi para o Arrudão. Por mais que tivesse vontade de ir, não consegui me ver no estádio do Santa Cruz junto com mais 60 mil pessoas. Tive medo, fui frouxo. Preferi internalizar um comentário ao texto de minha irmã postiça, Fabiana Tavares, da Virtual Produções, em que ela falava, lá no Face: “ok, ok, sou a única pessoa na cidade que NÃO que ir ao show de Paul”. O comentário de Maria Rosa, logo abaixo foi genial: “Se fosse John, eu ia.” Pronto, tomei o comentário de Maria Rosa, que eu nem conheço, para mim. Se fosse John, eu ia. Bela desculpa. Poética até.

Como eu nunca havia assistido a um show de Chico Buarque, foi a minha opção no Recife/Olinda de tantas atrações. Diferentemente do Arrudão, teatro, estacionamento perto da entrada, ar-condicionado, sentadinho na poltrona, pertinho do palco... No foyer do teatro, senhoras carregavam um ar de distinção. Eu não sou fã de Chico Buarque. Eu tenho inveja dele, uma inveja incontida. Quando eu pego o violão e canto algumas de suas canções anasalando a minha voz é uma grande demonstração de inveja. Não tem problema, curto a minha inveja sozinho, já que não toco mais violão na frente de ninguém. Assumi a minha falta de competência musical.

O show começa e, logo na terceira música, aquelas mulheres distintas que eu havia enxergado na entrada do teatro, começam a se desfazer de sua dignidade. E começam a soltar suspiros, a assoviar e, pior, começam a gritar frases que me encheram da tão famosa vergonha alheia.

Maravilhoooooosooooo!, Casa comiiigggoooo, Chiccooooo! Linnnndddooooo! Eu sou tuuuuuaaaaa!

No final do penúltimo bis, sabe como é essa história de bis, né? O artista termina o show com uma música que não empolga ninguém e sai do palco. As luzes da plateia não se acendem. O público fica aplaudindo até o artista voltar. É um joguinho de cena em que todo mundo desempenha o seu papel. Então, no final do penúltimo bis – não sei quantos foram antes – uma mulher despida da distinção que ainda possuía antes do início do show, encerra a música gritando - isso mesmo, gritando -  o último verso:

Futuros amantes, quiçá 

Se amarão sem saber 

Com o amor que eu um dia 

Deixei pra você.

Só que no “deixei pra você”, ela botou o pulmão para fora da boca e não gritou. Ela urrou “deixei pra vocêêêêê”.

Será que eu estava num show de Wando? Não, além de Wando já estar morto, não vi calcinhas sendo atiradas ao palco. Teria sido um show de Fábio Jr.? Não, Fábio Jr. carece de qualidade. Difícil de acreditar, mas era mesmo um show de Chico Buarque. À medida que a senhora distinta urrava, se descabelava em um ataque de histeria, eu continuava quietinho na minha poltrona, morrendo de vergonha alheia.

Vergonha alheia? Hummm, acho que não. Eu tava era morrendo de inveja.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

The book is on the table


            Esta semana, meus filhos retornam às aulas. Vão enfrentar uma situação que está posta no Brasil há décadas e que, junto a várias outras mazelas da nossa educação, é igualmente vexatória: eles vão ter que assistir a aulas de inglês no colégio. De imediato, você poderia achar que fui acometido pela doença do antiamericanismo tão vigente na década de 70. Apresso-me logo a explicar que não é isso. O que os meus filhos vão vivenciar ao longo deste ano letivo, junto com vários outros colegas, é o mesmo que eu vivenciei, como aluno, 40 anos atrás e o que eu vivi, como professor, há mais de 30 anos. Inglês, ou qualquer outra língua estrangeira, da forma que é ensinada no colégio é absoluta perda de tempo. Haveria formas de modificar o ensino da língua estrangeira, sim, mas acho que ao longo das últimas décadas, quem regula a educação no nosso país, a galera do MEC e outras tantas instituições públicas subordinadas ao ministério, são, provavelmente, analfabetos em outra língua que não o português ou são ingênuos o suficiente para achar que no colégio, da forma que é ensinado, o aluno consegue mesmo aprender inglês ou outra língua estrangeira. Tirando essas duas opções, só falta mesmo colocar a burrice e a incompetência de quem dá as diretrizes do ensino no Brasil.

         Para que eu me faça claro, vou tomar o exemplo do meu filho Rafael. Ele vai estar numa turma em que o professor vai falar do Present Perfect e explicar que é passado, imprimir textos, alertando para as cascas de banana que os examinadores colocam nas provas. Os examinadores, quando elaboram uma prova de Inglês, adoram utilizar a babaquice dos falsos cognatos. O falso cognato é quando, no texto, aparece uma palavra como “actually” e o examinador coloca logo na  primeira alternativa a tradução “atualmente”. Actually significa “na verdade”. Ou seja, o examinador está brincando de testar o conhecimento do aluno na lígua estrangeira.  A verdade é que Rafael, estudando inglês desde os 10 anos de idade, tendo feito intercâmbio e com o grau de proficiência em inglês por Cambridge não vai conseguir extrair nada de novo da aula de inglês do colégio dele. E eu não culpo o colégio nem o professor. Eu culpo o sistema que o obriga a assistir a aula de inglês quando ele poderia estar na biblioteca estudando qualquer outra coisa ou, simplesmente, lendo um bom livro. Ele poderia até estar lendo um livro em inglês, como tarefa dada pelo seu próprio professor. Obrigar Rafael a assistir a uma aula de inglês no colégio poderia ter várias comparações.  A mais óbvia, e que há muito tempo já foi corrigida: quem é atleta pelo colégio, está naturalmente, obviamente, logicamente, dispensado da aula de educação física. Nem sei se ainda é assim. Mas, imagine o atleta de alta performance fazendo aula de educação física junto com a geração videogame/internet de hoje. Mas, os homens públicos, recusam-se a parar uma horinha para pensar no ensino da língua estrangeira. Quem sabe a língua em um nível superior, e assiste a uma aula nos moldes que é ministrada no ensino médio, tem a sensação de que está perdendo um tempo precioso. Especialmente quem vai fazer o ENEM, essa ópera bufa que o MEC impõe aos estudantes todo ano. A ideia do ENEM, com a teoria de resposta ao item, é boa, muito boa. Mas, a sua aplicação... Vocês têm acompanhado os casos absurdos na correção das redações.

         Sabe quantas horas, aproximadamente, Rafael desperdiçará este ano, assistindo a uma aula que em nada acrescentará a ele? Aproximadamente 60 horas. O pior de tudo isso é que não será um ócio prazeroso, nem o tão decantado ócio criativo. Será um ócio chato. É uma coisa mais ou menos assim: digamos que você tenha se formado em Matemática e seja obrigado a assistir a uma aula em que o professor vai explicar soma e subtração. Eu estou exagerando? Ok, então vamos aumentar o grau de dificuldade...O professor vai explicar equação de primeiro grau. E você vai ter que ouvir ele explicar isso por 45 minutos. E você já é formado em Matemática. Saco. Ou, digamos que você tenha se graduado em História e vai ouvir o seu professor dizer que Dom Pedro I foi o primeiro imperador do Brasil, que Deodoro da Fonseca proclamou a República e que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea. Sentiu o drama?

         Mas a galera que comanda a educação nesse nosso Brasil não acha nada demais nisso. Provavelmente, se eles lessem esse texto iriam dizer: “Ora, eu tenho coisa mais importante pra pensar...” “Esse cara mima o filho com curso de inglês e intercâmbio, quer mais o quê? Ele é um caso pontual, não faz parte do universo macro que temos que pensar.” A educação não é  levada a sério no Brasil e o pior é que isso não é novidade para ninguém. Essa questão da aula de inglês parece ser apenas um detalhe em meio aos imensos desafios que a educação precisa vencer no país. Mas é um detalhe tão bobo que poderia ser resolvido com meio quilo de bom senso. Mas, bom senso é uma mercadoria em falta por aqui há muito tempo.

         Boa sorte, Rafa, e não esqueça: The book is on the table.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Três pontos de vista

Paris, 29 de dezembro de 2011.

O frio no Champs Elysée é cortante em dezembro. Mesmo assim, hordas de turistas descem e sobem dos ônibus especiais, aqueles em que a parte de cima é aberta. Bem próximo ao Arco do Triunfo, naquela fria manhã, um grupo de senegaleses executava algumas acrobacias ao som de um hip hop, em volume alto, em som tirado de uma caixa acústica à bateria. Algo em torno de 150 pessoas assistiam à apresentação e se divertiam com as acrobacias daqueles cinco jovens.

Apesar do frio, o céu estava completamente azul. Não havia uma nuvem sequer. Pelo que pude perceber, de onde eu estava, eles haviam chegado ao clímax do espetáculo. Foi nesse momento que dois policiais entraram em cena interrompendo o show. Os rapazes não podiam se apresentar ali. Mas, assim? Não mais que de repente? Foi então que procurei analisar o momento, sob o ponto de vista de cada um dos envolvidos, naquele pequeno episódio em um dos mais visitados cartões postais de Paris: o público, o grupo senegalês e os policiais.

Comecei pelo lado do público que ensaiou algumas vaias aos policiais. Esse mesmo público já haveria esquecido dos senegaleses, da apresentação e dos policiais no próximo instante, quando desviariam a lente de suas máquinas e sua atenção para o próximo ponto de interesse. Quase todos os turistas são superficiais como eu.

O grupo perdeu alguns trocados, é verdade. Poderiam ter faturado muito mais com a solidariedade fast food dos turistas. Logo mais, no entanto, estariam em outro cartão postal, ou naquele mesmo, fazendo novamente a mesma apresentação calculada para arrancar moedas de 2€ de quantos turistas parassem para apreciar o seu show tão fast food quanto a solidariedade dos turistas. Mesmo os rostos de desapontamento, de uma ensaiada tristeza com a interrupção policial, faziam parte da apresentação em busca de uns últimos trocados.

Mas, então, resolvi analisar a ação dos policiais. Vi, desde a hora em que se aproximaram, relembrando ao grupo de artistas de rua de que o que estavam fazendo ali era contra a lei. Não parecia ser a primeira vez que eram advertidos. Os policiais entraram no "palco" investidos apenas da lei. Mais que isso, entraram com a certeza de que estavam agindo correta e coerentemente, já que eles são pagos para defender a lei que foi estabelecida pelos representantes da sociedade. Ao receberem a vaia, ao invés de se intimidarem, se investiram ainda mais da força da lei e se impuseram. Não houve negociação, explicação, mas não houve violência igualmente. Apenas, e tão somente, a aplicação da lei. Naquele lugar, de acordo com a lei, não pode haver apresentação de rua. 

E você deve estar pensando: "Ivanildo virou o maior reaça!"

Talvez tenha virado mesmo. Mas, imagina o caos que seria se, além dos senagaleses, aparecesse uma batucada brasileira com as mulatas de biquini, ou uma banda americana cheia de coreografias, ou uns escoceses com gaitas de fole... Será que vocês imaginam a zona que o lugar viraria?

Mas, o que realmente me impressionou foi a imagem dos dois policiais - franzinos - mas, investidos de poder e legitimidade. Eles não estavam ali apenas executando um trabalho. Eles estavam ali para defender o que a comunidade à qual eles servem decidiu. Sem violência, sem arrogância, porém firmes. Eles eram dois, apenas, mas com a autoridade de milhões de franceses que decidiram, democraticamente, que na esquina do Arco do Triunfo não vai ter batucada brasileira, nem fanfarra americana, nem escocês de saia tocando gaita de fole. E nem senegalês fazendo acrobacia ao som de hip hop. Pronto. 

Sou reaça? Talvez seja mesmo. Nos meus áureos vinte e poucos anos, provavelmente eu estaria vaiando a polícia, correndo pra cima, dando porrada, fugindo dela. Estaria protestando e adorando. Mas, isso, lá atrás, nos meus vinte anos.

Se eu tinha alguma dúvida de que havia mesmo envelhecido, ela acabou de se dissipar.

P.S. Por mais glamuroso que pudesse parecer, eu não escrevi esse texto em um café de Paris, observando parisienses daqui pra lá, de lá pra cá. Escrevi esse texto na sala de espera de uma clínica em Barcelona, onde meu filho Rafael está fazendo uma ressonância para sabermos se ele vai precisar fazer uma cirurgia de emergência.

P.S. Desespero. Ele vai precisar, sim, fazer a cirurgia. O médico disse que é quase certo ele perder o testículo esquerdo. Eu e minha esposa seguramos a onda até ele entrar na sala de cirurgia. Depois, desabamos. Choramos e rezamos muito.

P.S. Alívio. Os médicos saíram. A operação foi um sucesso. Salvaram o testículo de Rafael. Agora, deitado na cama do hotel, ao lado dele, experimento a calma de estar junto do meu filho amado, cultuando a sua recuperação. Graças a Deus.